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Aliassime faz relato de caso de racismo: 'Pessoas precisam estar cientes disto'

Quarta, 03 de junho 2020 às 00:00:00 AMT

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Tênis Profissional

O canadense Felix Auger Aliassime foi convidado pela federação de seu país a dar um testemunho de racismo sofrido dia do movimento 'Blackout Tuesday' (Queda de energia da terça-feira), que povoou a internet com manifestações e depoimentos antirracistas.



Filho de pai togolês e mãe canadense, Aliassime sempre se esquivou de perguntas e declarações a respeito de racismo durante sua curta, porém bem sucedida carreira profissional. 

Uma das raríssimas vezes em que o jovem de 19 que falou do tema à imprensa, foi em fevereiro de 2019, em entrevista exclusiva ao Tênis News. "Quando eu era criança, eu olhei, disse e pensei: 'Nossa, ele [Tsonga] se parece comigo e isso é legal!' Eu não gosto muito de entrar nestes temas de política racial, mas o tênis é ótimo porque não importa de onde você vem, a língua que fala ou de onde seus pais são. Acho que isso deveria ser aplicado em todas as partes de nossas vidas. É incrível ver diferentes jogadores se enfrentando, curtindo juntos e sem pensar muito nesses pormenores", disse na ocasião dada a abordagem em termos de 'representatividade'.

Nesta terça, no vídeo compartilhado pela Tennis Canada, Aliassime contou um dos episódios de racismo sofrido pelo pai, em Quebec, no Canadá, onde a família mora.

"Para quem não sabe, eu sou filho de uma mãe franco-canadense e o um pai africano. Com isso, pude vivenciar os dois mundos. Eu cresci numa vizinhança muito tranquila na cidade de Quebec e eu sempre me senti afortunado de ter a liberdade de fala e oportunidades que todos os outros. É por isso que eu fico triste quando vejo que no mundo as pessoas não podem vivenciar da mesma liberdade e oportunidades que eu tive. Isso precisa mudar. Todos precisamos ter as mesmas oportunidades, não importa nossa cor de pele", conta o tenista.

Aliassime pontuou que entende a diferença que há em outros locais, outras vizinhanças e principalmente em regiões mais pobres nos Estados Unidos, não apenas para com negros, mas também com "outras raças". "É por isso que eu gostaria de compartilhar uma história pessoal, para mostrar que o racismo está aí, na vizinhança".

O jovem detalha um dia em que seu pai, professor de tênis, retornava para casa, um bairro abastado no Quebec, dirigindo sua Mercedes, ao voltar do trabalho. De acordo com o relato detalhado de Aliassime, seu pai notou ser seguido por um carro de polícia e decidiu "dar uma volta em um quarteirão" para ver se a polícia o seguiria.

"Ele virou à direita, à esquerda e a polícia continuava o seguindo. Ele fez um círculo completo e a polícia continuava o seguindo, então ele parou de um lado da rua e o carro da polícia parou atrás, desligou as luzes e quando ele viu uma policial estava lhe batendo à janela", os detalhes dados por Aliassime revelam que o pai já havia percebido que a abordagem foi feita em razão de seu tom de pele.

"Ele (o Pai) disse: 'Desculpe-me, eu cometi alguma infração? Fiz algo?' e ela respondeu: 'Não. Não'. E aí ele seguiu: 'Então porque estou sendo preso?' e aí ela explicou que era 'raro' ver 'pessoas de cor' dirigindo aquele tipo de carro naquela vizinhança'. Basicamente dizendo que por ele ser um africano negro dirigindo uma Mercedes, ele deveria ser parado", conta o tenista.

"Então meu pai disse: 'Alguém reportou o roubo de um carro nas redondezas?' e novamente ela disse 'Não. Eu apenas estou checando a situação'", seguiu relatando. "Esta pequena história, que não foi violenta, tudo transcorreu em paz. Mas quero dizer que este tipo de situação cria frustrações que serão despertas depois. Cria coisas como as que estamos vendo. Acho que as pessoas precisam ficar cientes sobre isso. Estejam cientes, isso não acontece com 'os outros', acontece com seus amigos, professores, treinadores e por acontecer com qualquer pessoa", ressaltou.

"Há um longo caminho a percorrer, em termos de equidade e o que mais me entristece é que acontece de lugar que as pessoas tomam por exemplo. Pra mim, policiais, professores e pessoal da saúde são exemplos e não podem agir primitivamente sob esteriótipos, seja cor da pele, sexismo e todas essas discriminações. Nós devemos olhar a todas as pessoas da mesma forma", ponderou.

 

Confira o depoimento na íntegra:

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