X

Do tênis à guerra, a incrível história de Simonne Mathieu

Terça, 21 de maio 2019 às 15:41:25 AMT

Link Curto:

Tênis Profissional

Por Ariane Ferreira - Nesta edição 2019 de Roland Garros, a Federação Francesa de Tênis (FFT) está a pleno vapor inaugurando as novas instalações do complexo, que tem como destaque a nova quadra em homenagem a Simonne Mathieu.



Moderna e com um conceito arrojado no que tange quadras esportivas no mundo (saiba mais aqui), a quadra ganha o nome de uma notável atleta francesa, cuja história ficou esquecida por anos nos registros do tênis.

Simonne Mathieu nasceu Simonne Passemard em Neuilly sur Seine no ano de 1908 e teve uma infância marcada pela relação complicada com o pai, que atuou como soldado na Primeira Guerra Mundial. Já aos 12 anos viu-se bastante doente e teve como recomendação médica a prática de alguma atividade física, incentivada pelo irmão mais velho, Pierre, optou pelo tênis e parou apenas décadas depois.

Aos 15 anos, Simonne foi campeã do torneio regional Prix d’Automne e começou a conquistar espaço. Aos 17 anos foi campeã juvenil de Roland Garros e entrou de vez para a elite do tênis francês disputando também a chave principal. Naquele ano, ela se casou com o ex-atleta e então jornalista René Mathieu, que foi de suma importância em sua carreira. Mathieu era chefe de comunicação da FFT à época, colunista de tênis na imprensa local, além de ser ex-atleta de rugby, tênis e outras modalidades.

Dois anos após o casamento, Simonne teve seu primeiro filho e no ano seguinte o segundo, mas nunca se afastou das quadras mesmo com filhos pequenos e competiu em mais de 15 países entre 1925 e 1939. Em 1938 ela conquistou o título do Pacific Coast Tournament, que à época era o segundo maior torneio realizado em território americano e um dos mais importantes do mundo. Mathieu foi a única francesa a competir e vencer este torneio.

Após a carreira, Simonne Mathieu gostava de dizer que o tênis a ajudou a conhecer o mundo e às pessoas, mesmo sem nunca ter competido no Australian Open, por exemplo: "Fui a todos os lugares, exceto à Escandinávia, às Índias e à Austrália. Tivemos uma ótima vida quando estávamos viajando, fomos tratados como a realeza", disse a certa ocasião. 

FOTO: FFT - Simonne Mathieu e a compatriota Nelly Landry. Note, a espectadora de óculos de sol ao lado das tenistas é a estrela de cinema Marlene Dietrich.

Em toda a sua carreira foram 13 títulos de Grand Slam, dois de simples em Paris (1938 e 1939), seis de duplas em Roland Garros (1933, 1934, 1936, 1937, 1938, 1939) e três em Wimbledon (1933, 1934, 1937), dois títulos em duplas mistas em Roland Garros (1937, 1938). Simonne Mathieu ainda fez final de duplas no US Open e uma em duplas mistas em Wimbledon. Estes números a tornam a segunda maior tenista da história da França, atrás apenas de Suzanne Lenglen.

Simonne Mathieu foi campeã da edição 1939 em Roland Garros, fez quartas em Wimbledon e viu a Segunda Guerra Mundial deflagrada. Então, decidiu abandonar a disputa do US Open, que acontecia quando a guerra iniciou, e voltar à França. No ano seguinte, após o chamamento do General Charles de Gaulle e se inscreveu voluntariamente para se unir às Forças Francesas Livres em Londres. A tenista parou a carreira para ajudar no corpo feminino voluntário.

Sobrevivente de zona de guerra, em 26 de agosto de 1944, no dia da libertação de Paris, Simonne Mathieu subiu a avenida Champs Elysées ao lado do capitão De Gaulle. De tenista, tornou-se capitã do exército francês.

Cabeça quente

Além da trajetória de vida que pode vir a ser considerada intempestiva em razão de ter deixado a vida e filhos pequenos para lutar, longe do fronte, uma guerra, Simonne Mathieu causou algumas polêmicas em sua carreira graças a esta característica.

Nas sempre tradicionais quadras de All England Club, Mathieu protagonizou em 1931 a primeira e provavelmente única saída da quadra de Wimbledon sem o cumprimento final. A francesa foi derrotada na semifinal pela alemã Cilly Aussem e assim que o último ponto acabou saiu de quadra sem cumprimentar nem a adversária e nem o arbitro de cadeira, causando alvoroço entre os espectadores. Já em 1936, ela desatou a falar muitos palavrões em quadra e consolidou sua "má fama".

Este último caso foi reportado pela imprensa francesa, pelo extinto jornal Mirior Sports: "Como a rede havia, em várias ocasiões, enviado a bola para fora de seu alcance, Madame Mathieu não conseguiu reprimir sua raiva e, atirando sua raquete para o chão em fúria, gritou: 'Esta maldita rede é inglesa!  'Infelizmente para ela, o povo britânico vê a palavra 'maldita' como uma violação grave do decoro".

Outro caso emblemático foi em 1939, na final em Monte Carlo, contra a alemã Hilde Sperling. Em um ponto muito decisivo, Mathieu cometeu um erro bobo e simplesmente abandonou a partida.

Do início da década de 1950 até 1960, Mathieu foi capitã das equipes francesas da Fed Cup. Ela faleceu em 1980 aos 72 anos e tornou-se introduzida póstuma ao Hall da Fama do Tênis em 2006.

 

banner
banner