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Agora técnico, Rochus vem ao Brasil e chama ATP de 'hipócrita'

Quinta, 21 de janeiro 2016 às 22:23:13 AMT

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Tênis Profissional

Por Leonardo Mamede - Nesta semana, o Challenger do Rio de Janeiro, disputado no Clube Marapendi, trouxe um grande nome do passado recente no tênis e o Tênis News bateu um papo com o belga Olivier Rochus, que chegou a ser o 24º colocado no ranking da ATP.



Ele começou a entrevista lembrando a parceria que teve com Roger Federer, que lhe rendeu bons frutos. “Sim, viajamos e jogamos juntos por algum tempo quando éramos juvenis. Ganhamos o Torneio de Wimbledon juvenil, em duplas, em 1998. No circuito, jogamos várias vezes [foram oito, com todas as vitórias indo para o suíço], infelizmente não tive muita sorte [risos]. Ainda somos bons amigos.

Começando a carreira de técnico, o belga está no Rio com dois jovens: Clement Geens, 411º, e Arthut de Greef, 203º. Ele comentou a nova empreitada. “Não tenho uma academia. Sou funcionário da Federação Belga de Tênis e tenho um acordo para ir a quinze torneios por ano com jovens do meu país. Aqui, no Rio, estou com Clement Geens e Arthur de Greef. Ainda amo o tênis, mesmo após ter parado, senão não passaria quinze horas num avião para chegar aqui [risos]”.

Sobre a possibilidade de um dia ser treinador da equipe belga na Davis, Rochus mostra-se tranquilo, mas não declinaria o convite, caso este fosse feito. “Não é algo que tenho em mente como objetivo, mas eu amo meu país, não deixei de comparecer a um jogo de Copa Davis durante quinze anos, representei a Bélgica em três Jogos Olímpicos; caso fosse convidado, seria um desafio muito grande e é claro que eu aceitaria.”

Falando acerca da atual geração belga, que no ano passado chegou à histórica final da copa Davis, comandada por David Goffin, 16º do ranking da ATP, Rochus mostrou-se animado. “Vejo a nova geração do meu país com muita empolgação. Goffin [David] obviamente é número 16 do mundo, e isso é realmente muita coisa. E ele só tem vinte e cinco anos, até acho que ele pode surpreender na Olimpíada daqui. Também temos Coppejans [Kimmer, atual 128º], que ainda é bem novo [vinte e um anos] e alcançou o top 100 no ano passado, Arthur de Greef [203º, 23 anos], Clement [Geens, 411º, 19 anos], Bemelmans [Rubens, 28 anos, 107º] e Darcis [Steve, 110º, 31 anos], que são mais experientes, já conviveram bastante no top 100 e levam essa bagagem para os mais novos. Para mim, que em quinze anos de carreira não deixei de comparecer a um jogo de Copa Davis, foi muito especial ver a Bélgica chegar à final.”

APOSTAS

O belga comentou as denúncias feitas pela BBC e o site BuzzFeed de que, há dez anos, dezesseis jogadores do top 50 são investigados por negociar a venda de jogos com apostadores por dinheiro. Ele disse compreender o que leva jogadores de baixo escalão a tal nível, mas reprovou com veemência aqueles que têm bom ranking, ganham dinheiro com premiações do esporte e mesmo assim se vendem. “Vi as notícias pela TV belga. É muito triste, eu fico pensando o que leva um jogador a fazer uma coisa dessas. Tudo bem, eu “entendo” [o belga faz o sinal de aspas com as mãos, enfatizando que, apesar de ‘entender’, obviamente não concorda] alguém que disputa Futures ou Challengers [torneios de menor escalão e com baixa premiação] aceitar fazer isso, por tudo que os envolve: altos gastos com viagens, baixa premiação, a incerteza dos resultados. Se um jogador desses se machuca, como vai ser a vida? Afinal, é o tênis que o sustenta. Ele perde na primeira rodada e leva 500 dólares de premiação;  num momento, um homem aparece em seu quarto de hotel oferecendo 50 mil dólares para ele perder um jogo e você quer condená-lo por aceitar? Por isso, entendo quem aceita essa situação.”

“Agora, um top 50? Nesse nível, você faz dinheiro, muito dinheiro. Não há razão para abandonar o espírito esportivo, a ética no esporte. Eu, que sempre lutei tanto por cada partida em minha carreira [Nota da Redação: Olivier Rochus era, de fato, um notável guerreiro dentro de quadra] nunca conseguiria dormir sabendo que fiz uma coisa dessas. É horrível saber que fazem isso por ganância. Realmente não consigo entender como Lance Armstrong, por exemplo, conseguiu dormir por tanto tempo, sabendo que tinha trapaceado e negando as denúncias toda vez que o perguntavam sobre”, disse, citando o americano, heptacampeão do Tour de France, que pedalava dopado e era protegido por um forte esquema para encobri-lo, revelado em 2013.

Ao final do polêmico assunto, uma dura missão para Rochus: indagado sobre a presença de seu irmão, o ex top 40 Christophe Rochus, em lista de um site sueco, de 2011, que apontava o nome de jogadores que negociavam jogos, ele negou a participação do irmão mais velho, cujo melhor ranking foi o 38º posto. “Sim, não foi a primeira vez que o puseram numa lista dessas. Quero dizer, rumores sempre surgem, sites podem reportar o que quiserem, mas eu o conheço desde que somos crianças e tenho certeza de que ele nunca faria isso. Não somos tão diferentes”.

CRÍTICAS À ATP

Sobre a ATP, o belga fez duras críticas à Associação, contando, inclusive, um caso que classifica como ‘hipocrisia’ da entidade que rege o tênis mundial. “A ATP nunca fez nada para parar isso. Deveria ter mais atitude, ser mais enérgica. Houve torneios em que o patrocinador principal era uma casa de apostas, empresas de apostas me ofereciam patrocínio pontual [NR: em muitos torneios, empresas pagam jogadores para exibir suas marcas na manga da camisa em jogos, geralmente aqueles que terão mais exposição] para jogos e a ATP simplesmente barrava, não deixando eu usar o logo da empresa. E eu dizia ‘ora, mas o mundo inteiro está vendo o torneio e têm logos enormes de uma casa de aposta expostos na quadra. Qual é a diferença [entre eles verem o logo na quadra e na minha camisa]?’ É pura hipocrisia deles [ATP].

Quando perguntado sobre o Australian Open, primeiro Grand Slam do ano, que acontece neste momento, simultaneamente ao Challenger do Rio de Janeiro, o belga não distoa do resto dos analistas e também classifica o sérvio Novak Djokovic como absoluto favorito para a conquista, apesar de considerar Federer e Wawrinka entre os ‘bem poucos’ que podem tomar a taça de Nole. “Sim, vejo Djokovic como grande favorito. O Federer ainda tem nível para ganhar, mas, em um jogo de cinco sets, é muito difícil que ele jogue com estabilidade no nível em que precisa estar para bater Djokovic. Wawrinka também tem alguma chance. Mas, certamente, são bem poucos que podem tirar o título dele [Novak Djokovic]”.

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