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Filosofia da Quadra - Filosofia do Tênis Brasileiro 2ª parte

Terça, 27 de dezembro 2005 às 21:00:00 AMT

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Fernando Fontoura

Por Fernando Fontoura, autor do livro Tênis para todos

Na quarta edição da coluna Filosofia da Quadra, Fernando Fontoura traz a segunda parte de Filosofia do Tênis Brasileiro indo mais a fundo nos problemas do desenvolvimento do tênis nacional associado a falta de apoio da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). Não Perca!

Fernando Fontoura

Filosofia do Tênis Brasileiro - 1ª parte


Filosofia do Tênis Brasileiro - 2ª parte

Um dos problemas do tênis brasileiro é que nossos melhores ex-atletas estão se dedicando a dar aulas para executivos e intermediários enquanto deviam estar ao lado de nossas promessas juvenis. É como ter o Bill Gates dando cursinhos de Internet para 3ª idade. Aceitar um trabalho acima de sua capacidade é falsear a realidade; aceitar um trabalho abaixo de sua capacidade é falsear a si mesmo. Grandes nomes do nosso tênis, que defenderam o país na Copa Davis e levaram o nome do Brasil ao ranking mundial, não podem se contentar em ficar dando aulas de tênis para iniciantes.

Nosso tênis juvenil, sempre tão promissor e rico, precisa de suas experiências in loco, precisa das marcas deixadas por eles no caminho. Esses ex-profissionais deviam chamar a responsabilidade da verdadeira função de quem tem muito a ensinar.

Imagine seus filhos sendo ensinados na faculdade de administração por pessoas que nunca tiveram uma empresa ou gerenciaram alguma; imagine os jovens aprendendo sobre medicina de um professor que nunca foi médico ou clinicou e diagnosticou uma dor de garganta. Tanto um profissional quanto outro têm seu valor referente à sua função e trocar esses papéis não garante eficiência, produtividade e qualidade.

O mercado do tênis brasileiro é muito pequeno e por isso mesmo qualquer um que queira meter a mão e realizar algo, o fará. Não há impedimentos maiores. Não é como o mercado de petróleo, onde há uma sucessão de esferas até se chegar ao topo. Um grande exemplo de vontade e determinação é Yone Borba Dias que movimenta o tênis veterano no Brasil. Sozinha, apenas armada com sua paixão, realiza há anos o maior evento veterano do país, o VIP de Porto Alegre. E nada a impediu de realizá-lo até agora, embora quase nunca tivesse o apoio merecido pelo seu esforço.

Uma senhora ativa, determinada, convicta realiza o maior campeonato de ‘velhinhos’ do Brasil graduado a nível 1 da I.T.F. (Federação Internacional de Tênis). O que fazem nossos ex-profissionais que já têm o caminho meio aberto? O que fazem nossos maiores nomes do tênis brasileiro por seu futuro e pela saúde do nosso esporte no Brasil? Não há desculpas. Querer dividir o pequeno mercado em dois já é um ato de maldade, pois não podemos nos dar ao luxo de escantear ninguém. Precisamos de força máxima, pois já estamos, no mínimo, oito anos atrasados, desde quando Guga ganhou pela primeira vez Roland Garros. Nossa estrela solitária não apenas como campeão, mas como pessoa consciente: foi por ele que a onda do tênis cresceu novamente de uma maneira como nunca havia crescido, foi por ele que os melhores juvenis do Brasil iam treinar em sua academia no final de cada ano, foi por ele que começou o movimento de moralização do tênis brasileiro através do boicote à C.B.T., movimento que parou na falta de força dessa nova moral.

O maior sintoma da morte de nosso tênis brasileiro é a falta do interclubes. Eu e muitos outros juvenis da época crescemos assistindo, nos que eram os grandes clubes brasileiros, nomes como Fernando Roese, Marcos Hocevar, Luís Mattar, Cássio Motta entre outros, defendendo o brasão desses clubes. Mesmo muitos sendo contratados por esses clubes, davam a oportunidade de nós juvenis da época podermos vivenciar o grande espetáculo do nosso melhor tênis. Muitos de nossos clubes do Brasil foram reconhecidos internacionalmente por esses grandes nomes que povoaram suas quadras. Não foi pelo esporte lazer nem pelos bailes de debutantes que eles foram reconhecidos internacionalmente. Foi pelo esporte de competição. Imaginem o Grêmio Náutico União de Porto Alegre a partir de agora defender a idéia de ginástica olímpica apenas por lazer. Depois de dar ao mundo Daiane dos Santos, resolver dar duzentos passos para trás e decretar o esporte lazer como o principal objetivo do clube. Pergunte quanto cresceu o interesse por aulas de ginástica no clube desde que Daiane dos Santos despontou e tudo o mais estará respondido.

O tênis sem competição já existe em alguns clubes do Brasil. E seu futuro é onde meia dúzia de sócios espantem qualquer idéia de torneio durante o final de semana, joguem com raquetes que não são trocadas há mais de cinco anos, devendo, em pouco tempo, estarem de volta às raquetes de metal e fazem do clube uma mini Cuba: ninguém entra, ninguém sai. Os profissionais do esporte, que antes freqüentavam esses clubes, agora estão emburacados em academias onde os juvenis que poderiam ser o futuro do tênis podem jogar apenas sua hora paga e depois vão embora para casa jogar vídeo game.

Com uma inversão tão radical de papéis no mercado tenístico não é de espantar que tenhamos o que temos hoje: nada. Apenas alguns esforços individuais tentando chegar à muito custo na luminosidade do sol que os outros países – como Argentina, Espanha e Rússia – deixam escapar. Víamos antes nossos melhores juvenis sendo os melhores do mundo até que não conseguiam ir adiante por falta de apoio em um esporte que não tinha visibilidade. Mas hoje, reclamar de falta de visibilidade e apoio é, no mínimo, criminoso. O que falta não está mais fora do mercado, está dentro dele: comprometimento. Comprometimento daqueles que vivenciaram, vivenciam e vão vivenciar por muito tempo esse mercado. Como pode alguém não estar atento ao mercado em que vive? Isso é morte para qualquer empresário, mas os onipotentes profissionais do tênis pensam estar acima disto. Podem negar suas escolhas, mas não seu resultado. Não podem querer algo agindo de forma contrária a conseguir esse algo. Não planto cebola para colher batatas. Mas aí ficam duas perguntas: 1) querem realmente algo para o crescimento do tênis no Brasil? 2) o resultado que querem para si tem a ver com o mercado no qual estão inseridos? Podem estar utilizando do conhecimento que esse mercado lhe deu para conseguir o que querem, mas não se importam realmente com esse mercado. Sem problemas, desde que não tranquem a engrenagem da máquina para satisfazer suas premissas de engenheiros deste mercado. Conseguir resultados sangrando a vaca que dá leite não é uma estratégia muito inteligente para quem viverá nesse meio por muito tempo.

Profissionais do tênis, dirigentes de clubes, dirigentes de federações e da confederação tentem ser coerentes com aquilo que sempre defenderam na quadra e fora de suas salas, valorizem-se e ajam da forma adequada às suas funções. Parem com esse concurso de beleza, pois sem o salão nenhum cabeleireiro terá o que fazer. E quando vários salões forem fechando não poderão dizer depois que não sabiam.

Uma parte nunca pode ser mais importante que o todo. Ela se refere à sua função e só tem valor em relação ao todo, sozinha seria uma peça de quebra cabeça perdida por algum lugar sem função e sem beleza. E o todo só tem significado porque precisa cumprir com seu objetivo. Um avião que não voa, um navio que não flutua e um carro que não anda, por mais que tenham todas as peças no lugar, se não cumprirem com sua função não terão sentido de ser. Que cada peça se comprometa com sua parte para que o todo possa cumprir com sua função e só assim se porá em movimento o sentido geral de ser o que é.

Está mais do que na hora das federações e confederação se comprometerem com o tênis em sentido geral e mercadológico, seus profissionais cumprirem sua parte de ensino qualificado e treinamento do que aprenderam na estrada, dos educadores dos professores se conscientizarem que o que sabem não tem valor se não for posto em prática seu conhecimento e que todo conhecimento, independente de onde venha, se for qualificado e honesto, tem que ser contado e valorizado.

Como dizia Aristóteles: “O valor não está em receber honras, mas em merecê-las”.

Fernando Fontoura

Sobre Fernando

Em 1998 lançou Configure seu Jogo – o tênis além do instinto. Em 2003 lançou Tênis para Todos editado pela ULBRA (Universidade Luterna do Brasil).

Tênis para Todos foi usado como bibliografia no livro Tênis para Crianças - Manual para pais, filhos e mestres , lançado em 2004 por Suzana Silva, professora com método próprio e administradora de academias em São Paulo.

Produziu e apresentou um programa de TV por 4 meses com o titulo Tênis Para Todos que tinha por objetivo socializar o esporte.

Atualmente escreve crônicas esportivas em um sites especializados e revistas de tênis.

Foi jogador regional e ministrou aulas por dez anos tendo vários cursos no Brasil e exterior.

Confira mais sobre seu livro: Tênis para Todos
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