X

Filosofia da Quadra - Filosofia do Tênis Brasileiro

Sexta, 09 de dezembro 2005 às 12:00:00 AMT

Link Curto:

Fernando Fontoura

Por Fernando Fontoura, autor do livro Tênis para todos

Nesta terceira edição da coluna Filosofia da Quadra, Fernando Fontoura, autor do livro Tênis para Todos , polemiza sobre o comportamento da Confederação Brasileira de Tênis na condução do tênis brasileiro em geral. Ele critica os métodos das antigas e atual direções da CBT. Não perca! E mandem emails a Fernando:

Fernando Fontoura


Filosofia do tênis Brasileiro

Em toda história do mundo foi sempre os poucos que fizeram para os muitos. A humanidade se move segundo as convicções de poucos. O motor do mundo, que é o que nos faz estar agora lendo essa crônica em um computador, através da Internet, sentados em uma cadeira confortável através de um processo chamado tecnologia e inovação, pertence a poucos. O telefone foi o resultado da convicção de um contra muitos; o avião foi o resultado da convicção de um contra muitos (“nada mais pesado que o ar pode voar!”); sabemos que a Terra gira em torno do sol pela convicção de um contra muitos (“a heresia de difamar o conceito de que a Terra era o centro do universo!”); a luz elétrica foi o resultado da convicção de um contra muitos (“já fracassou tanto, para que continuar?”); a teoria da relatividade está de pé graças a convicção de um contra muitos (em uma reunião de cientistas da época, deram a Einstein um documento assinado por mais de trinta cientistas do mundo dizendo que a teoria da relatividade era um absurdo, ao qual respondeu Einstein: “Se eu tivesse realmente errado, bastaria uma assinatura”). Em todos os sistemas coletivizados que existiram nunca o ser humano se beneficiou mais do que em um sistema onde cada indivíduo pode ter a liberdade de pensar, criar, produzir e ficar com o resultado dessa ação. Tanto em governos quanto em empresas, quando um assunto provoca muitas reuniões, as reuniões acabam sendo mais importantes do que o assunto que as gerou. Quando o coletivo interfere demasiadamente nas ações dos indivíduos, eles acabam por serem sufocados e toda esfera social acaba perdendo.

A cúpula do tênis brasileiro que há muito é inoperante em termos de atender às necessidades da promoção do esporte de competição agora quer interferir no ensino deste. A promoção dos novos coordenadores do projeto de cursos para professores de tênis no Brasil em si não é reprovável, mas os métodos...Fazer apologia de suas virtudes em cima da suposta fraqueza dos ‘concorrentes’ é a pior e malfadada forma de fazer política. Não adianta dizer que todos estão agindo em prol do bem e de um ideal que todos querem. Isso é óbvio, pois se estivessem agindo em prol do mal seriam as criaturas mais desprezíveis que existem. E dizer que é em prol de um ideal coletivo não nos torna iguais e ‘parceiros’. Essas frases de efeito fácil servem para palanque, mas não têm a mesma eficácia quando postas em prática. Quando falam em ‘objetivo comum’ e ‘mesmo ideal’ esperam que com uma simples idéia vaga nos identifiquemos com eles e nos consideremos ‘parceiros’ e assim já sancionamos de antemão qualquer ação que venham a tomar. Se o objetivo do homem de bem é fazer dinheiro e o do ladrão também não posso me considerar igual a ele por termos o mesmo propósito. O que difere um do outro são os meios, os métodos que usam para o mesmo fim. É por isso que o homem de bem está aqui fora enquanto o ladrão está na prisão. Não basta todos querermos as mesmas coisas para assim aprovarmos de antemão qualquer projeto para esse mesmo fim. Isso não é argumento que aprove, como carimbo, qualquer ação. Já havia mencionado em uma crônica anterior (Validação) o fato desses novos coordenadores não validarem o trabalho feito pelos seus antecessores frente a C.B.T. (Confederação Brasileira de Tênis). Repudiei e continuo repudiando o fato de quererem separar em dois um mercado tão pequeno quanto é o do tênis brasileiro. Os novos coordenadores desse ‘novo’ projeto de ensino do tênis brasileiro têm que entender que não há concorrentes, há pessoas que agem e pessoas que criticam. E que jamais em um nicho tão pequeno podem se dar ao luxo de expulsar ou maldizer os primeiros corajosos que resolveram agir antes de todos. É graças a quem planta o trigo que vocês colhem e o fato de vocês hoje estarem tentando plantar o trigo não invalida nem apaga o que outros já fizeram.

O que me preocupa em toda essa confusão é o aspecto moral implícito que circunda todas essas ações. Só queremos rotular alguém de ‘concorrente’ e nos esforçamos para fazer isso toda vez que temos chance, quando queremos ficar com a fatia de mercado que julgamos 'nos pertencer por direito’. Ou seja, interesses próprios através de uma entidade e em nome de um ideal comum. Mais uma vez, nas políticas entre partidos ou em entidades, a moralidade do espertalhão alcança vôo máximo nas estruturas que seriam para alicerçar a moralidade do justo e do correto. Quando o justo e o correto são palavras tão elásticas quanto as maneiras de encará-las e interpretá-las pode-se estar certo que poucos vão ganhar às custas de muitos.

Os cursos de professores anteriores a este novo plano dos coordenadores da CBT já deixou rastros, era só segui-los. Muita coisa poderia ser melhorada, mas de maneira nenhuma apagada.

Assim acontece com as melhores invenções: uma sucessão de pessoas tentando aprimorar o que um antecessor havia descoberto e posto em prática. Por que cargas d´água no meio do tênis tem que ser diferente? De onde se arrogam esse direito? De lá para cá vários profissionais do ensino estão muito melhores capacitados do que antes. O que a nova C.B.T fez com isso? Onde estão os nomes deles? Quem os contatou? Pediram alguma idéia ou ouviram o que tinham a dizer? É como querer estudar o universo sem conhecer as estrelas e planetas. Não tem como dar certo, não tem como funcionar e ser produtivo qualquer plano que não conte com os melhores em detrimento de sei lá o que ou de quem.

Aos poucos que fazem as coisas acontecerem, e eles sabem que estou me referindo a eles, peço apenas uma coisa: saiam de suas tocas e tomem a responsabilidade daquilo que é de vocês. Vocês sabem que não adianta o negócio de vocês estar bem se o mercado em que estão inseridos anda de mal a pior. E o mercado do tênis é tão pequeno e carente que cada um de vocês, fazendo aquilo que mais sabem fazer, vão garantir que tudo ande como tem que andar e assim garantirão o seu futuro e o de todos os outros que apenas olham. Não podemos querer prosperar em um mercado onde o melhor tem que pedir desculpas por ser melhor ou tem que fazer as coisas muito abaixo de sua capacidade para continuar dentro. Isso não é correto e não é justo e nenhum plano elástico vai provar o contrário.

O mercado do tênis brasileiro é enxuto, forte e promissor, basta que as pessoas certas tomem suas responsabilidades para consigo mesmas e não fiquem acreditando que não sabem, que não conhecem pelo simples fato de ninguém reconhecer isso em vocês. Vocês se reconhecem, e isso basta!

Fernando Fontoura

Sobre Fernando

Em 1998 lançou Configure seu Jogo – o tênis além do instinto. Em 2003 lançou Tênis para Todos editado pela ULBRA (Universidade Luterna do Brasil).

Tênis para Todos foi usado como bibliografia no livro Tênis para Crianças - Manual para pais, filhos e mestres , lançado em 2004 por Suzana Silva, professora com método próprio e administradora de academias em São Paulo.

Produziu e apresentou um programa de TV por 4 meses com o titulo Tênis Para Todos que tinha por objetivo socializar o esporte.

Atualmente escreve crônicas esportivas em um sites especializados e revistas de tênis.

Foi jogador regional e ministrou aulas por dez anos tendo vários cursos no Brasil e exterior.
banner
banner