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Filosofia da Quadra - Tênis e Ética

Quarta, 26 de outubro 2005 às 13:00:00 AMT

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Fernando Fontoura


Por Fernando Fontoura, autor do livro Tênis para todos

A TênisNews tem o orgulho de apresentar mais um colunista. Fernando Fontoura, 35 anos, autor de dois livros sobre tênis, Tênis para todos e Configure seu Jogo – o tênis além do instinto , comandará a coluna Filosofia da Quadra em que escreverá, a cada 15 dias, sobre diversos temas relacionados ao tênis, utilizando o lado psicologico no esporte. O tema de estréia é Tênis e ética . Leiam e escrevam para Fernando:

fcdafontoura@hotmail.com


TÊNIS E ÉTICA

Você faria negócios com alguém que no 4 a 4, 30 iguais do terceiro set daria fora uma bola na linha? Se associaria com quem duvidasse sempre quando diz que a bola foi fora e que constantemente vai ver a marca duvidando de sua honestidade? Você faz qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, para ganhar? Prefere jogar como gosta ou jogar para ganhar? Perder é algo aceitável no seu jogo ou uma coisa que você não admite? Tirar o outro do jogo com catimbas e coisas extra jogo faz parte de seu repertório de táticas ou você quer ganhar dentro do jogo?

O esporte individual é um reflexo do que somos na vida e nossas atitudes na quadra refletem com muita veracidade (senão completa) nossas atitudes na vida, no dia-a-dia e nas coisas mais simples. Não é dissociada nossa postura dentro e fora da quadra. O esporte coletivo já disfarça um pouco essas atitudes, embora alguns jogadores se sobressaiam em suas atitudes dentro e fora da competição. Há alguma surpresa em o Maradona estar no fundo do poço como está? Para quem faz gol com a mão, joga dopado e faz valer de qualquer artifício externo para alcançar um resultado, não. Há surpresas de Pete Sampras não se envolver em nenhum escândalo amoroso, financeiro ou de qualquer outro tipo? Para quem sempre se concentrou em suas próprias potencialidades e alcançou o topo através de muito trabalho e sem reclamar de juizes ou bolas mal cantadas, não.

A ética que temos na quadra é a mesma que temos na vida. Não há ética empresarial, ética social, ética esportiva. Há a ética. Ponto. Não dá para ser meio ético. Não há relatividade. Ou se rouba a bola na linha ou não se rouba. Não há meio roubo. Ah, mas eu pensei em não roubar. Mas somos julgados pelos atos, não pelos pensamentos.

Matei, mas me arrependi. Vou virar pastor de igreja agora. Sou atleta de cristo. A canela do meu adversário que eu quebrei? Ah, foi coisa do jogo. Aquela roubadinha nem foi tão importante assim. Já vi em um jogo de juvenis (16 anos) um jogador duvidar da marcação do outro. Na próxima bola ele deu fora uma bola 10 centímetros dentro e ganhou o game. Na virada disse para o adversário: “Você roubou aquela bola, mas eu roubei a mais importante”. Como se isso explicasse tudo e por isso fosse absolvido de qualquer culpa.

Em um jogo de futebol ouvi um comentarista dizer que até foi pênalti, mas que se o juiz resolvesse marcar todos os pênaltis como aquele, teriam setenta pênaltis por jogo. Como assim? Para ser pênalti tem que arrancar uma perna, sangrar ou jogar um adversário longe? Falta é falta. Dentro e fora da área, falta é falta. E se tiver que marcar setenta pênaltis por jogo, que marque. Essa relatividade de onde e quando se ser ético é um dos grandes problemas que temos na sociedade. E vemos isso nas quadras de tênis e em outros esportes onde o que valeria era a brincadeira e a diversão acima de tudo. Mas não somos dissociados. Aquilo que é muito relativo na verdade não é. O que eu gostava com quinze anos ainda gosto hoje. Se mudo muito é porque não gostava, é porque não era.

As atitudes são reflexo de alguma filosofia interna, não são aleatórias. Sabemos já de antemão quais tipos de atitudes teremos em muitas situações. Podemos até dizer internamente que faremos diferente, mas na hora fazemos como sempre fizemos e isso não nos surpreende. Muitas vezes não queremos é aceitar que vamos duvidar daquela bola quando o jogo apertar, mas na hora duvidamos. O conflito interno é porque sabemos que não deveríamos agir desse modo, mas agimos. Ser um jogador fairplay não significa que não ser competitivo, mas sim que as coisas têm um limite e que a vitória sob certas condições não é plena e nem é vitória. Em um mundo onde todos querem levar alguma vantagem e que valoriza o ‘jeitinho’, ganhar dentro dos limites da ética e da moral é uma vitória muito maior. Ganhar algo que não se merece é um ato de corrupção interna. Ganhar por merecimento é um ato de exaltação interna. Ser ético na quadra é ser ético na vida, nos seus reflexos, e um ato de coerência onde todo resultado é positivo e toda vitória é merecida.

Fernando Fontoura

Sobre Fernando

Em 1998 lançou Configure seu Jogo – o tênis além do instinto. Em 2003 lançou Tênis para Todos editado pela ULBRA (Universidade Luterna do Brasil).

Tênis para Todos foi usado como bibliografia no livro Tênis para Crianças - Manual para pais, filhos e mestres , lançado em 2004 por Suzana Silva, professora com método próprio e administradora de academias em São Paulo.

Produziu e apresentou um programa de TV por 4 meses com o titulo Tênis Para Todos que tinha por objetivo socializar o esporte.

Atualmente escreve crônicas esportivas em um sites especializados e revistas de tênis.

Foi jogador regional e ministrou aulas por dez anos tendo vários cursos no Brasil e exterior.
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