X

Um Pouco Menos Tênis...

Quinta, 15 de novembro 2007 às 16:13:44 AMT

Link Curto:

Nikolay Davydenko - Roland Garros 07 II

Por Artur Oliveira

"Um ano de estranhos acontecimentos", sentencia o New York Times em seu espaço esportivo na edição on-line desse Domingo. Um esporte cuja história sempre foi pautada por organização, clareza, cavalheirismo e honestidade foi acometido, em 2007, por uma série de eventos relacionados com jogatina e até suspeita de envenenamento de atleta.

O Masters Series de Paris, por exemplo, precisou ser monitorado por agentes secretos franceses, à paisana nos vestiários, incumbidos de flagrar algum desconhecido fazendo propostas espúrias aos tenistas. Tommy Haas, excelente atleta alemão, diz que jamais se sentiu tão mal como no sábado do duelo entre Alemanha e Rússia pela semi-final da Copa Davis de 2006. Suspeita de envenenamento...

Em qualquer cidade brasileira, se o leitor visitar um clube de tênis perceberá certas peculiaridades em grande parte das pessoas que praticam esse esporte: nível de instrução bastante alto - inclusive pelo fato do tenis ainda ser, infelizmente, um segmento esportivo praticado apenas pelas elites locais - e uma grande disponibilidade de fazer novas amizades e agregar outros parceiros ao seu círculo de 'adversários'. Levando a discussão para o universo do tênis profissional, veremos que as coisas não mudam: os tenistas, em geral, são pessoas esclarecidas e com uma bagagem cultural bastante elevada, além de serem completamente resolvidos financeiramente - pelo menos aqueles entre os cem melhores do mundo, nos quais se concentram as discussões mais recentes.

Portanto, é inconcebível que atletas desse porte, que transitam em um meio inclusive 'pomposo' de grandes celebrações e premiações bastante generosas sejam seduzidos por pressões externas. Arrisco dizer que os tenistas envolvidos, alguns deles, talvez não tenham tido opção.

Profissionais. A desconfiança geral cai sobre os ombros de Davydenko devido à sua estranha derrota para o argentino Martín Vassalo Argüello, cujo ranking é inferior e também pelo percalço ter acontecido em uma virada incomum. O tenis cada vez menos tenis. Depois desse episódio, os atletas que costumam sempre se respeitar passaram a protagonizar um bate-boca polido sobre o caso. O escocês Andy Murray disse ser comum o assédio a tenistas para 'plantar' resultados, o que foi veementemente rebatido pelo espanhol Rafael Nadal que pediu a Murray que citasse nomes. Enfim, o mundo do tênis está completamente desestruturado a ponto de, segundo o New York Times, o árbitro de cadeira Cedric Mourier ter questionado o próprio Davydenko sobre a fragilidade de seu serviço durante uma partida. A que ponto o tênis chegou: em meio à desconfiança de todos, um árbitro se vê no direito de questionar o atleta sobre seu saque deficiente. E por que me referi à falta de opção no parágrafo anterior? A máfia russa, ligada à jogatina, tem um reconhecimento internacional acerca do volume de dinheiro envolvido em suas atividades e de seus métodos de persuasão.

O tênis é um esporte agregador, cujo público em geral, em qualquer esquina brasileira, é caracterizado pela educação e por alto grau de instrução. Em um nível profissional, o tênis protagoniza histórias muito bonitas de atletas que deixaram seus países de origem devido às dificuldades econômicas, políticas e  aos conflitos sociais e militares rumo a outras nações tendo como perspectiva a ascensão como tenista. O russo Marat Safin é um caso emblemático: deixou a antiga União Soviética comunista rumo à Espanha, onde deu início à sua carreira, tendo chegado em 2000 ao posto de número um do mundo. O croata Ivan Ljubicic, por sua vez, deixou a conflituosa Croácia, antiga Iugoslávia, rumo à Itália onde passou a treinar em uma academia desse país, coordenada por seu atual técnico, Riccardo Piatti.

Além disso, o tênis sempre foi exemplo de rivalidades saudáveis entre jogadores que sempre se respeitaram dentro e fora das quadras. Portanto, de forma nenhuma o tenis pode ser lesado por essa névoa de desconfiança que paira sobre o circuito, mesmo porque até o dado momento tudo que se tem são especulações. Esse tipo de acusação precisa ser sustentada por fatos que, desculpando a redundância, a sustente. E nenhum fato concreto foi apresentado até agora.

Sobre Artur Oliveira

Artur Salles Lisboa de Oliveira é jornalista, coordenador-geral da Revista Eletrônica Raciocínio Crítico, acompanha o circuito profissional de tenis desde Novembro de 2003 e colabora com a Tenis News desde Março de 2005.

Email: arturslo@hotmail.com
banner
banner