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A Parcela de Culpa de Todos Nós

Terça, 12 de dezembro 2006 às 12:00:26 AMT

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Guillemo Canas - RJ

Por Artur Salles Lisboa de Oliveira

No calor do ufanismo repentino causado pelo filme “Turistas”, uma cena inusitada proporcionada pelo tenista argentino Guillermo Canãs parece ter, surpreendentemente, passado despercebida aos olhos da imprensa tenística nacional. Na final do torneio intitulado “Desafio dos Campeões” – no qual só havia um verdadeiro campeão, o catarinense Gustavo Kuerten -, o hermano resolveu ironizar uma marcação duvidosa feita por um dos juízes de linha limpando seus olhos com uma toalha. Uma simples brincadeira para alguns; um descaso grave para outros.

É inegável que, seja em Wimbledon ou em uma competição mais modesta na América do Sul, juízes de cadeira e de linha estão constantemente em conflito com os tenistas devido à natureza tensa peculiar ao jogo de tenis. Entretanto, no episódio da toalha envolvendo Guillermo Canãs e um juiz de linha que, por imposição do ofício, teve que aceitar a provocação, não havia tensão em grandes proporções já que a partida tinha natureza de exibição. A impressão é que diante da simplicidade do torneio – estrutura física, cobertura midiática, ranking dos presentes e país no qual estava se realizando – o argentino se sentiu confortável para tirar sarro de algo que não parece ter muita importância para um ex. número oito do mundo.

Imaginem o parque público de Flushing Meadows, em Nova York, lotado. A imprensa americana e mundial debruçadas sobre as quadras, sedentas pelas melhores fotos e por declarações bombásticas. De repente, um tenista estrangeiro resolve enxugar o suor de um juiz de linha após uma marcação duvidosa. A reação dos ianques seria, obviamente, uma sonora vaia e perseguição ao “engraçadinho” até seu último suspiro no torneio. Os mais exaltados sugeririam uma medida mais radical: Guantánamo. A manchete do New York Times no dia seguinte dedicaria linhas e mais linhas ao caso. Mas, nós brasileiros somos complicados. Por um lado, ameaçamos boicotar um “filmeco” de um maranhense radicado em Los Angeles; em contrapartida, vemos uma atitude como a de Guillermo Canãs como algo normal no universo do tenis e do respeito aos povos.

Fora das quadras não somos exemplos de nada. Após a derrocada do senhor Nelson Nastás, cuja administração foi caracterizada por gastos excessivos (uma portentosa sede na Avenida Paulista) e incompetência na popularização do esporte, assumiu o senhor Jorge Lacerda, com irrestrito apoio dos principais tenistas brasileiros que em protesto afundaram a equipe da Davis para uma inédita terceira divisão. Agora o capitão da Davis, Fernando Meligeni, declara sua saída do posto devido a atrasos de pagamentos, imposição dos locais de realização dos jogos, dentre outras coisas. A incompetência mais uma vez desfalca o tenis nacional.

Surge a pergunta: será que não é o caso de intervenção do Ministério Público na Confederação Brasileira de tenis sob o argumento de improbidade administrativa? Caso aconteça, o tenis nacional receberá uma dose de oxigênio com a formação de uma equipe provisória de profissionais qualificados e, sobretudo, comprometidos. Com tantos assuntos relevantes a tratar, não vejo uma manifestação organizada de praticantes em prol do tenis. Devem estar todos nas salas do cinema tentando impedir que os brasileiros assistam ao “filmeco” americano. Falta-nos palavras ou meios de fazê-los escutá-las?

Artur Salles Lisboa de Oliveira – www.raciociniocritico.com / arturslo@hotmail.com
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