X

Ricardo Acioly fala sobre CT da Amil e motivação dos jovens em treinos com Guga

Quinta, 24 de agosto 2006 às 13:36:27 AMT

Link Curto:

Ricardo Acioly II

Entrevista feita por Fabrizio Gallas, Tênis News

Ex-técnico de Fernando Meligeni e capitão do time brasileiro na Copa Davis durante cinco anos (setembro de 1998 até setembro de 2003), o carioca Ricardo Acioly concedeu entrevista exclusiva a Tênis News onde contou desde o início, em 2003, até o momento atual do Projeto Centro de Treinamento da Amil, situado no Rio de Janeiro, classificando como "o melhor centro para se treinar do país" segundo suas próprias palavras. Acioly falou sobre a motivação que os jovens do CT vem ganhando com a presença do ídolo maior do tênis brasileiro, Gustavo Kuerten, quem vem treinando e se tratando com o fisioterapeuta Nilton Petrone, desde maio.

"Pardal", assim apelidado, falou sobre sua política focada em desenvolver jovens talentos, contou a dura rotina que os garotos passam. Ele não quis destacar um tenista que pode se tornar um grande jogador, mas rasgou elogios a João Souza, o Feijão, que recém-completou 18 anos e já ocupa o 772º posto do ranking da ATP.

Acioly revelou também que Franco Ferreiro saiu da Amil "por não compatibilizar com nossos treinamentos". Ferreiro foi um dos primeiros a integrar o CT e saiu em 2005 após alcançar o 180º posto no ranking.

Tênis News – Foi você mesmo que idealizou esse projeto da Amil ? Como surgiu o Centro de Treinamento ?
Ricardo Acioly -
Sim, a idealização e o projeto foram meus. Isso surgiu no começo de meu relacionamento com a Amil , com o presidente do grupo. Ele patrocinou dois de meus jogadores, o Fernando Meligeni e o Alexandre Simoni. Daí desenvolvemos uma amizade, um relacionamento maior e eles tinham uma iniciativa de ter um clube de tênis pra os executivos do grupo Amil no Rio. Quando eles estavam montando esse clube, a gente colocou “por que não expandimos para virar um Centro de Treinamento ?” e daí foi caminhando a coisa.

O Centro de Treinamento está situado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro

TN – Mas você é do Rio de Janeiro ?
RA -
Sim, nasci no RJ, mas aos oito anos fui pra Brasília. Basicamente cresci em Brasília, tenísticamente falando eu sou de lá. Mas depois não dava para ficar mais lá, fui um tempo pra São Paulo na época que jogava e também quando treinava o Meligeni.

TN – Como foram os primeiros anos no CT da Amil ? Foi muito difícil ? Que jogadores você teve na época ?
RA -
O Projeto é mais seletivo de pouco meninos pra gente dar mais atenção pra eles. O grupo começou com dois meninos, o Franco Ferreiro e o Thiago Espirito Santo, a partir daí veio o André Miele, o Luis Henrique Grangeiro que ficou parado por seis meses com tireoíde que agora voltou. Daí foi evoluindo dos meninos,vários já passaram e fazemos uma reciclagem também.

TN – E hoje quais tenistas vocês têm ?
RA -
Falando dos mais novos temos o Feijão (João Souza), o Rafael Garcia, o Ricardo Siggia, o Luis Henrique Grangeiro (Kike), o André Miele, o Ivan Machado, o Marcelo Melo que é um dos mais velhos. Acabamos de começar uma outra estratégia de pegar uns mais jovens como o Victor Galvão do RJ, o Hugo Schafter, de Juiz de Fora. Teve uma época que tinha o Felipe Lemos, o Felipe Russo e Felipe Fingerl, todos do RJ. O Lemos parou um pouco para estudar e trabalhar junto com o pai dele. Foi uma pena porque ele estava no melhor da carreira dele e tinha apenas 21 anos.

TN – Qual a estrutura que conta a Amil ?
RA -
São 13 quadras de tênis. 10 de saibbro e 3 rápidas. No total quatro cobertas. Temos ginásio completo com piscina, sala de massagem, Home Theater que faço palestra e mostro vídeos pros meninos e esse espaço é todo pra gente.

TN – Qual a rotina dos garotos quando eles treinam ? Você e mais quantas pessoas que cuidam dos meninos ?
RA -
Tem o Rodrigo Leander que entrou há pouco tempo, o Duda Matos, e o Luis Faria como treinadores. Tenho dois prepadores físicos que são o Romildo Rabello e o Mario Brandão. Às vezes muda um pouco a rotina, mas geralmente eles chegam no clube pouco antes de 8h da manhã e de 8h até às 9h eles fazem o trabalho de musculação. A partir de 9h15, 9h30 eles já estão dentro de quadra e ficam até 12h. A partir daí eles tem uma parada de cerca de três horas onde voltam pra casa, o que não dá nem 10 minutos do CT. Eles tem suporte de uma Van que dá transporte. Depois voltam e treinam de 15h às 17h e fazem trabalho físico.

TN – E vocês tiveram há pouco tempo na equipe o Raony Carvalho que treinava em Brasília... RA -O Raony não veio como um integrante “integral” podemos dizer. Ele é de Brasília, conheço o pai dele e ele desde pequeno. Ele treinou duas semanas conosco veio com a gente jogar os Challengers.

TN – Pelo que você observou dele nessas semanas o que falta para o Raony se desenvolver e despontar como jogador ?
RA -
Falta trabalho. Ele basicamente não tem trabalhado muito o que deveria estar trabalhando. Em todos os aspectos. O aspecto físico ele não tem feito um trabalho bem direcionado. Precisa estar na mão de gente especifica. Ele tem potencial, bons golpes, mas prum menino da idade dele, deveria estar evoluindo tecnicamente e isso é algo que é imprenscindível. Tem que trabalhar tudo na verdade.

TN – Como foi que ele chegou na Amil ? Ele veio até vocês ou vocês fizeram o convite ?
RA -
Foi algo mútuo. Sabia que ele queria fazer algo diferente do que vinha fazendo. Daí estive no Brasileirão em Brasília, conversamos e convidei ele pra passar umas semanas no RJ.

TN – E aí tá descascando o garoto por la ?
RA -
Pergunta pra ele (risos). Acho que ele está trabalhou mais duro do que trabalhou na vida dele.

Raony Carvalho atualmente está treinando atualmente com Larri Passos, ex-técnico de Gustavo Kuerten

TN – Quem hoje da Amil que você vê que pode despontar, virar um grande jogador ? Feijão ?
RA -
Acho que é muita pressão falar de apenas 1 jogador. Todos os garotos lá estão trabalhando na melhor rotina possível, num excelente nível de dedicação, mas aí é cada um se desenvolver individualmente. Quem ganha o jogo são eles. Eu fui jogador e quem ganha é o jogador. Eu tinha treinador e ele me ajudava, não ganhava o jogo. Isso que falo pro meus pupilos: “Não ganho jogo pra vocês”. Eu preparo, dou uma boa estratégia, talvez não seja a melhor, mas dou o plano e tenista tem que entrar na quadra e executar, essa é minha filosofia. Não pode haver uma dependência tão grande do jogador com o treinador. Quem ganha é o cara lá dentro. Eles tem a estrutura toda disponível e eles se desenvolvem mais rápido ou menos. É obvio que você tem o Feijão que é um menino de 18 anos que tem um bom perfil e tá tendo bons resultados. Ele é extremamente dedicado, abidica de outras coisas pra estar com o tênis, pensa o tênis o tempo inteiro então isso aí já é um bom sinal. A essa idade ele está comprometido com o tênis. As vezes temos muito meninos de talento, de potencial, mas ainda não estão maduros pra se comprometer e serem um profissional do tênis, como abdicar de certas coisas como família, vida social, a vida normal de um menino de 17, 18 anos.

TN – E você por pegar muitos meninos nessa idade, já teve casos em que viu que não dava pra continuar por esses problemas de sair muito na noite ou não se dedicar ?
RA -
Acho que como treinador você tem que ser sempre exigente e querer mais, tentando sempre chegar ao limite. É muito difícil você chegar e dizer “Voce não vai ser um bom jogador”. Em muitos casos já vi isso no tênis e esses treinadores chegaram e quebraram a cara. Mas você sabe que alguns meninos estão mais longe do ideal, dependendo da idade. Temos por exemplo o Marcos Daniel que demorou pra chegar lá, agora quase 10 anos depois da transição com 27 anos e é um cara que nunca deixou de lutar, correr atrás...

TN – Ele também teve o problema da falta de dinheiro...
RA -
Mas o Meligeni teve, o Guga também teve falta de dinheiro. TN – Na Amil, vocês pagam a viagem dos garotos ?
RA -
Tem uns meninos que recebem as viagens custeadas, outros que não. Funciona mais ou menos num sistema de bolsa. A Amil que custeia.

TN – O Franco Ferreiro treinou bastante tempo na Amil, ele foi um destaque chegou a 180 do mundo aí ele saiu no ano passado. Foi uma opção própria ? O que aconteceu com ele ?
RA -
Foi uma divergência de caminhos. O Franco queria seguir um caminho que eu achava que era diferente do que deveria ser feito.

TN – Qual caminho ?
RA -
Um caminho diferente. Uma maneira de treinar diferente da nossa, maneira de ver outras coisas diferentes, então não compatibilizou.

TN – Vocês estão tendo a presença do Guga no Centro de Treinamento da Amil. E nesse período inicial o Feijão basicamente treinou com ele...
RA -
O Feijão porque ele é um dos melhores e saiu na mídia que ele treina direto com o Guga. Mas o Rafael Garcia já treinou com ele, o Ricardo Siggia, o Andre Miele.

TN – E vocês estão abertos a poder acompanhar os treinos do Guga lá ?
RA -
Treino do Guga é treino do Guga. Se ele quiser ter a imprensa lá, não vejo problema.

TN – E como é o acompanhamento dos treinos do Guga. Ficam os jovens treinando com você e o Hernan Gumy (técnico de Guga) dando um apoio especial ?
RA –
Às vezes sim, às vezes não. Às vezes temos só os preparadores físicos. Ele tem a rotina dele, mas nossos meninos não mudam a rotina deles a não ser que seja necessário.

TN – E como você observou as condições do Guga em seu período de treinamentos lá ?
RA -
Prefiro não ficar falando muito dele. O ideal é ele estar falando sobre ele. O que posso dizer é que está trabalhando pra caramba. É super dedicado, chega 9h da manhã e saí 19h da noite, fazendo trabalho de fisioterapia, reforço muscular, trabalho físico. E isso aí é especial pros meninos. A presença dele é inspirante pra todos. Tive muito contato com ele no circuito e nos seis anos que fui capitão da Copa Davis, mas a grande maioria das pessoas nunca tiveram esse contato com ele.

TN – E o Guga vai ficar até quando treinando na Amil ?
RA-
Isso vai depender da preparação dele quando ele tiver que jogar os eventos, o circuito. Ainda não tem uma data certa.
TN – Como surgiu esse contato com o Guga pra ele vir treinar na Amil ? Foi por causa de sua parceria com o Nilton Petrone (fisioterapeuta) ?
RA -
O Filé já vem trabalhando com meus meninos desde o início do ano. Então os meninos já fazem um trabalho de prevenção de lesões e aí quando ele se juntou com o Guga foi lógico que ele viria pra Amil e acho que é o melhor Centro pra treinar no Brasil que se tem.

TN – O Projeto da Amil já realizou algum torneio profissional, Future ou Challenger ou juvenil ? RA -Não. No momento estamos fazendo mais eventos coorporativos no clube da própria Amil ou de relacionamento de empresas que estão envolvidas com a Amil, mas não um torneio. Acho que em breve podemos pensar em realizar. Mas o intuito não é ser um clube normal. É ser um centro de treinamento mais de ter um grupo tranquilo de não ter aquele movimento de eventos e torneios. Não está ainda moldado nisso aí, mas acho que daqui há algum tempo comece a mudar um pouco.

TN – E existe alguma meta de pegar mais juvenis, jogadores que estão se destacando por agora ? Como funciona esse contato com o jogador e vinda pro projeto ?
RA -
Eles vem por muita indicação, temos treinadores que estão viajando que observam e eu tento também não entrar em conflito com a estrutura do jogador. Eu não chego pro treinador do atleta e digo “gostei dele vou treinar ele”, não posso fazer isso. Tem meninos que querem que entrem em contato ou alguém que quer e às vezes até o próprio treinador que chega e diz “cheguei no meu limite e ele tem que passar pra outro nível” daí pede pra eu olhar o jogador. Eu também vou a algum evento e começa a observar, sempre vou ao Brasileiro, olhando os meninos da base e também os treinadores do Brasil inteiro me dão toques. Não penso em pegar profissionais, mas sim garotos em formação pra trabalhar em desenvolvimento, mas obviamente que profissionais vem treinar aqui. O que tenho feito ultimamente é agregar tenistas de outros países pra treinar conosco. Alejandro Gonzalez, um colombiano que joga muito bem, jogou gira européia, vai vir treinar com a gente no RJ. O Lapentti já veio treinar com a gente também, umas duas, três vezes. E outros de fora que querem vir treinar conosco. O Marcelo Rios quando treinava ele fez a pré-temporada aqui.
banner
banner