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Em entrevista à Tênis News, Fernando Romboli afirma que quer ser um novo Guga

Quinta, 17 de agosto 2006 às 10:00:00 AMT

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Fernando Romboli - Entrevista

Por Ricardo Alencar e Fabrizio Gallas

Personalidade é uma característica comum a muitos ídolos do esporte. O tenista juvenil de 17 anos, Fernando Romboli (Localfrio/Sesc/Kirschbaum), que acaba de conquistar a etapa carioca do Circuito Unimed, já mostra que não as esperanças em torno do seu tênis não são à toa. O atual vice-campeão do Banana Bowl afirmou, em entrevista exclusiva a Tenis News, que não quer ser apenas mais um tenista no circuito mundial e pretende se tornar o sucessor de Gustavo Kuerten.

Carioca de nascimento e atualmente morando em Santos, a jovem promessa falou também sobre Copa Davis, a nova comissão da CBT, a falta de apoio para tenistas que saem do juvenil e vão para o profissional, como está sua cabeça para essa transição. Além disso, revelou que Sampras, Federer, Guga e Meligeni são os tenistas que mais admira e que sonha chegar a Top 10 um dia.

Tênis News - Com que idade começou a jogar tênis? Teve algum ídolo no esporte em geral e no tênis?
Fernando Romboli -
Comecei a jogar com 6 anos, em Santos. Nasci no Rio, mas com 1 ano fui pra lá. Meu tio tem uma academia onde comecei a jogar tênis, fazia natação e com 8 anos defini que seria o tênis. Sempre gostei muito do Sampras por ser um vencedor, pelo espírito dele em quadra, parecia ser imbatível. Gostava dele mais pela atitude até do que pelo jogo dele. O Guga é ídolo pro Brasil inteiro. Quando ele ganhou Roland Garros em 97 eu ainda era pequeno, mas na 2ª vez já fui conhecendo mais ele. O que ele fez pelo país ninguém nunca fez então acho que ele será sempre lembrado como ídolo.

TN - E esse caso das contusões do Guga? Na sua opinião ele deve parar ou seguir tratamento para tentar retornar? O que ele representa para você?
FR -
Pra ele jogar no nível Top 10 é muito difícil. Ele tem potencial, mas acho que ele não tem mais físico pra chegar a Top 10. Talvez Top 30 ou Top 40 se ele manter os treinamentos e a contusão não atrapalhar mais ele. È válido ele continuar tentando voltar enquanto ele gostar de jogar tênis. Pro Brasil sempre será válido porque ele é um grande nome. Sempre falei que meus ídolos eram Sampras, Meligeni e Guga.

TN - E por que o Meligeni ? Como você acha que ele está indo no comando do time do Brasil na Davis ?
FR -
O Meligeni pela raça, a atitude que tinha dentro da quadra, sempre lutando por todos os pontos, sempre honrando a camisa do Brasil. Nisso me inspirei muito nele. Quando ele parou de jogar conheci ele, já conversamos e ele sempre me deu umas dicas, me elogiou, então fui admirando mais a pessoa dele fora das quadras também. Acho que tudo depende de resultados. Já conseguimos subir agora vamos disputar a repescagem, time brasileiro melhorou depois do boicote (dos jogadores em relação à equipe da Davis). O pessoal está bem, o Saretta, o Mello.

TN - Qual sua opinião sobre esse confronto que vai acontecer em setembro, em BH pela Davis entre Brasil e Suécia? Temos chance de devolver aquela derrota de 2003?
FR -
Com essas mudanças no time sueco acho que as chances do Brasil aumentaram (Thomas Johansson não deve jogar e Joachim Johansson está voltando de contusão e é dúvida para o confronto). O Brasil tem grandes chances, mas vai ter de jogar muito bem. O problema é a dupla sueca que vai entrar em quadra. Esse jogo de duplas pode ser decisivo. O Soderling é um cara que está num ritmo muito forte, mas pode sentir o físico. Acho que Belo Horizonte não seria o melhor lugar pro confronto por ser alto. Deveríamos jogar ao nível do mar, pois os suecos sentiriam muito mais o cansaço. A torcida não chega a atrapalhar os europeus porque eles são muito frios, mas pode ajudar os brasileiros. O fator torcida é mais a favor do Brasil do que pressão contra os suecos.

TN - Como está sendo o ano de 2006 pra você?
FR -
Esse ano comecei jogando o Cosat, na Venezuela consegui furar o quali, na Colômbia perdi na 2ª rodada do quali. No Equador consegui meu melhor resultado, quando cheguei às quartas de final. No Paraguai cheguei as oitavas de final, um bom resultado. Depois do Banana parei 10 dias por causa de uma contusão no abdômen. Depois treinei 2 meses seguidos e fomos pra Europa. Foi muito bom como experiência, bem diferente. Deu pra ver o nível dos jogadores de lá. Em termos de resultado, cheguei as quartas de final em Offenbach, na Alemanha e oitavas no Astrid Bowl, na Bélgica. Fiquei de fora do quali de Roland Garros e Wimbledon.

TN - Como foi jogar na Grama de Wimbledon?
FR -
Em Wimbledon joguei duplas com Daniel Dutra, saímos na 2ª rodada e foi uma experiência marcante, muito boa pra ver o dia-a-dia de um tenista profissional. É o que me motiva pra continuar jogando e um dia chegar lá, nesse nível. Até encontrei o Federer e tirei uma foto com ele. E tivemos o mesmo tratamento dos profissionais, com acesso a tudo, quadra marcada, enfim tudo muito profissional. Foi minha 1ª experiência na grama, mas gostei muito de jogar, apesar de ser difícil se adaptar. Joguei muito bem nas duplas. Espero voltar ano que vem.





TN - Voce vai jogar o US Open Juvenil? Há uma preparação especial para esse torneio? Qual a expectativa?
FR -
Sou 5º cabeça de chave do quali, e cerca de três precisam desistir (outros dois entram como special exempt), então acho que tenho boas chances de jogar. A única diferença em relação à preparação pra outros torneios é que você treina quadra onde será o Grand Slam. Tivemos uma preparação especial antes de ir para a Europa, como se fosse uma pré-temporada. Ficamos 2 meses só treinando, sem jogar, pra aprimorar preparo físico pra agüentar os 2 meses e se adaptar ao clima também. Depois desse torneio aqui no Rio (Circuito Unimed) já vou pro US Open. Devo viajar pros EUA na 1ª semana de setembro. Depois jogo uns 5 ou Futures, no quali, aqui no Brasil.

TN - Você chegou a final do Banana Bowl esse ano e acabou perdendo para o espanhol Albert Ramos por 6/2 6/0. Você se surpreendeu com seu desempenho, já que chegou como lucky-loser ?
FR -
No Banana Bowl, não joguei bem o quali e perdi pro Pedro Feitosa. Acabei entrando de lucky-loser porque o jogador que ia disputar se machucou. É muito difícil acontecer isso, mas aconteceu e fiquei surpreso. Eu já tinha conseguido WC (wild card) pras duplas, então teria que ficar mesmo. Pensei: “já que tive essa oportunidade vou aproveitar”. Desde o 1º confronto fui pensando jogo a jogo, bem focado, e fui jogando bem relaxado. Nas oitavas peguei o Feitosa de novo num jogo muito duro, com mais de 3 horas de duração, ganhei. Ali embalei. Nas quartas joguei muito bem, ganhei tranqüilo de um jogador que havia perdido 2 vezes. Na semifinal foi mais complicado, mas estava jogando no meu melhor nível. Não joguei bem o 1º set, mas consegui reverter. Aí na final aconteceu o mesmo da semi, quando não joguei bem no 1º set.

TN - O que você acha que faltou para conquistar o titulo, que quebraria um jejum de 25 anos (a última conquista de um brasileiro nesse torneio foi em 1981 com Eduardo Oncins)? Sentiu algum tipo de pressão? Que lição pode ser tirada dessa derrota?
FR -
Na hora não senti pressão, tava tenso por ser uma final de torneio importante. Internamente talvez tenha sentido um pouco sim. Nas semifinais eu já tinha sentido aquele frio na barriga, mas ganhei. Assim que acabou a semi eu já estava com a mesma sensação pra disputar a final. Comecei a pensar no jogo muito cedo e não costuma acontecer isso comigo. Nessa final ele jogou bem, errou muito pouco, não sentiu pressão em nenhum momento, era um tenista muito completo.

TN - Como você define seu estilo de jogo?
FR -
No Banana Bowl estava jogando muito atrás, foi até bastante comentado. É um aspecto que estou mudando. Tenho bons golpes, me considero completo. Tenho uma esquerda muito boa, a direita não é tão boa, mas a bola “anda” bastante também. Um aspecto que estou muito bem é fisicamente. Acho que preciso melhorar a movimentação de perna, mais intensidade. Sou jogador mais de trocas de bola no fundo da quadra, mas dependendo da jogada subo a rede também, tenho bom voleio. Gosto de jogar mais no saibro.

TN - Como é ser um jovem de apenas 17 anos e lidar com a rotina intensa de treinamentos e torneios?
FR -
A gente tem uma rotina bem puxada na EGA, em São Paulo. Treino das 8h às 10h30 na quadra, às 11h preparo físico, às vezes musculação, às vezes parte aeróbica. Depois volto pra quadra e treino de 13:30 às 15h. Depois de novo a parte física com musculação ou aeróbica. Ou seja, 5 horas de quadra e 3 horas de parte física. O Eduardo Valim esta me acompanhando como técnico.

TN - Você possui alguma meta, algum sonho como tenista profissional? Um Top 100, ou Top 50 no futuro? (atualmente Romboli ocupa a 11ª posição no ranking da CBT).
FR -
Agora não estou muito preocupado com ranking da ITF (está na 63º posição), pois estou bem colocado. Vou virar profissional com um ranking muito bom, tipo 30º, 28º do mundo no juvenil e já sou quase cabeça de chave em Grand Slam juvenil. Talvez eu jogue Orange, México ou Austrália então vou tentar manter essa posição. Vou tentar fazer um ponto como profissional agora. Como profissional não quero ser um Top 100, quero ser um Top 10. Não quero ser mais um, quero tentar ser um Guga. Não tenho o pensamento de querer ser o melhor que eu puder. Quero ser o melhor de todos e pra isso preciso treinar muito, muita força de vontade e determinação e aproveitar minhas oportunidades. Acho que falta pra mim um pouco de regularidade e intensidade. E o psicológico sempre tem que melhorar também, né. Não ponho nenhuma meta de ranking profissional pro ano que vem.

TN - A questão dos patrocinadores. Apesar de você Ter vários patrocinadores te apoiando na maioria dos casos os tenistas, quando saem do juvenil e vão para o profissional ficam sem apoio. Qual seria a solução para esse caso?
FR -
Além da EGA, tenho patrocínio da Localfrio e agora do Sesc além do material esportivo da Wilson e da Kirschbaum. Patrocínio como eu tenho só tenistas da equipe EGA que possuem e mais um ou dois no Brasil inteiro. Teria que ter muito mais pelo talento que tem no país o apoio ainda é pouco.

TN - Com o surgimento de Guga pensou-se que o tênis nacional teria um incentivo maior. Você acha q melhorou ou acabou não tendo os investimentos necessários para a formação de mais tenistas? A nova comissão da CBT dá o apoio necessário aos juvenis?
FR -
Acho que o fenômeno Guga poderia ter sido muito mais bem aproveitado. nova formação da CBT melhorou em termos de quantidade de Futures que vieram pro Brasil é um ponto muito bom. A maior dificuldade do brasileiro é essa transição do juvenil pro profissional então é nesse ponto que precisamos de mais ajuda como apoio financeiro, mais torneios, mais empresas no Brasil para que o tenista juvenil não tenha que sair daqui pra fazer pontos. Os europeus não precisam sair do continente deles enquanto nós sim. Nosso país é muito grande e isso dificulta um pouco também. Precisamos de mais apoio pra base do tênis brasileiro. O tenista brasileiro sente muito essa transição do juvenil para profissional porque ainda é muito imaturo no juvenil. Os argentinos são muito mais maduros, tem uma conduta profissional desde o juvenil por isso eles não sofrem tanto com essa transição. É uma questão cultural. Antes de entrar pra EGA eu treinava muito pouco e sei que isso já me causou um atraso. Agora tenho que trabalhar mais pra suprir essa deficiência.

TN - Dentro do circuito hoje há algum tenista que você goste mais de assistir? O que acha de Federer e Nadal . Há no circuito alguém capaz de pará-los?
FR -
Federer e Sampras pra mim são os tenistas mais regulares, e também gosto deles pela atitude na quadra. A mentalidade do Federer lembra a do Sampras. Os golpes do Federer não preciso nem comentar. O Nadal também é fenômeno, mas pelo esforço. É um jogador que usa muito a força, é muito determinado e acho que ele ganha do Federer por ser o único que encara de frente o melhor. Por isso ele vence, porque ele respeita, mas sente que pode ganhar o cara que todos acham invencível. E o Federer sabe disso. Muitas vezes ele conquista um torneio, uma vitória, no nome, pois os outros respeitam muito ele. Contra Nadal é diferente, porque ele luta, corre e isso vai minando o Federer, um exemplo de esforço. Apesar de gostar mais do Federer admiro o Nadal.

TN - Como é sua vida fora das quadras? Gosta de futebol, acompanha os campeonatos? Qual seu time?
FR -
No dia a dia eu treino em São Paulo e sexta feira vou pra casa em Santos. Fico mais relaxando mesmo, sem fazer nada. Não sou muito de sair. Em torneios de fora às vezes a gente tira um dia pra visitar, conhecer a cidade, mas sempre treinando. Gosto de ficar um pouco na internet também. Sou flamenguista, apesar de morar em Santos porque meu pai é carioca e torce pro Flamengo, então me influenciou. Não dá pra acompanhar muito os campeonatos porque a gente fica treinando 8 horas por dia, fica meio que fora do mundo, não vê muita TV, mas sempre que posso assisto algum jogo.
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