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Filosofia da Quadra - Alto Nível e Doping

Sábado, 14 de janeiro 2006 às 21:44:06 AMT

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Fernando Fontoura

Por Fernando Fontoura, autor do livro Tênis para todos

Quinta edição da coluna Filosofia da Quadra. Desta vez, Fernando Fontoura traça um paralelo dos esportistas de alto nível e os casos de doping que vêm aumentando ultimamente não só no tênis (Mariano Puerta, Guillermo Cañas, Sesil Karatantcheva) como também em diversos outros esportes. Vale apena conferir!

Fernando Fontoura



Alto Nível e Doping

Esporte de alto nível faz mal à saúde. Esta deveria ser a legenda na parte de baixo da tela da TV quando vemos atletas competindo. Tipo aquela que tem em programas científicos ou de mágica: “Não tente fazer isso em casa”. Normalmente quando se olha esportistas em atividade, por absoluta inveja de não se ter seguido os talentos e sonhos, pensa-se apenas nos benefícios que eles têm. Viajam o mundo, têm saúde, gostam do que fazem e ainda ganham por isso. Como toda escolha há a parte das concessões. Não têm vida social, ficam longe da família, não conseguem se acostumar com uma rotina, trabalham duro apenas no que escolheram fazer e não podem se dar ao luxo de experimentar coisas novas além do que fazem, pois podem correr o risco de se machucarem e acabarem ou interromperem suas carreiras prematuramente. Os espectadores pensam que o dinheiro compensa tudo, pois dão um significado irreal para ele. Esquecem-se que quem dá valor às coisas é o homem e não o inverso.

Não há um atleta de alto nível em qualquer esporte que não tenha sido operado pelo menos uma vez. Usam e abusam dos limites do corpo para se manterem no alto nível exigido de competitividade. Têm, em média, dez anos de mercado em alto nível, após isso sua vida muda drasticamente. Vem a aposentadoria do esporte, mas não da vida. Novos caminhos terão que ser abertos ou descobertos.

E quando falamos em atletas de alto nível estamos falando da nata, da elite de qualquer esporte. Abaixo deles têm milhares de pessoas tentando ser o melhor possível para poder repartir o privilégio de estar no topo. Muitos deles morrem na praia, ou por questões financeiras ou por questões de saúde. Os que chegam lá já chegam sobrecarregados de atividades e responsabilidades que se quadruplicarão quando chegarem ao topo. O que desenvolvem para chegarem ao seu melhor são as características de sua personalidade. Treinam, comprometem-se, persistem, traçam objetivos, trabalham com a realidade e estão sempre tentando se aprimorar. Ou usam de qualquer artifício extra para burlar ou encurtar esse caminho. É como o empresário, que sempre terá riscos e isso faz parte do negócio, pois nada é infalível e garantido. A única maneira de não ter riscos em seu negócio é através do suborno. Paga-se para eliminar os riscos e encurtar o caminho. No esporte isso se chama doping. É o artifício externo para eliminar boa parte do caminho a percorrer. Mas três coisas se perdem aí: o aprendizado do caminho que é o que proporciona ao atleta poder conquistar mais de uma vez, a inversão ou supressão da moral e da ética e o preço que se paga fisicamente por esse ‘atalho’.

A melhor maneira de investir em seus sonhos é ter conquistado, ao menos uma vez, qualquer desejo. É o que torna o homem capaz de saber que o que foi conquistado poderá ser conquistado novamente através do aprendizado gerado pelo seu próprio esforço. Ganhar uma Mercedes não é mesmo que comprá-la. E comprar uma Mercedes dá a certeza de que se pode conquistar muito mais coisas de igual valor ou maior. O sentimento que levantou cidades, que enfrentou inimigos, que construiu fábricas, que fez inventos e que traz a prosperidade é o orgulho próprio que só é alcançado por pessoas realizadoras e que pagam o preço justo e correto de suas conquistas. Quando se inverte ou se suprime a ética e moral, seu conjunto básico de sobrevivência individual e social na terra, entra-se em um mundo de contradições e antagonismos. Viver em contradições é a certeza de uma vida infeliz. Não se pode acreditar naquele ditado comunista que dizia, para justificar as atrocidades contra a natureza humana, que os fins justificam os meios. Não pode haver objetivos nobres vindos de meios pérfidos. Meios ruins trazem finais ruins. Algo não pode ser mau em um contexto e ser bom em outro. Almejar algo bom e usar meios ilícitos não transformará a conquista em algo nobre, porque, mais uma vez escreverei, é o homem que dá significado às coisas e não o contrário. Como tudo o que conquistamos tem um preço e só é válido pagar esse tal preço quando o que ganhamos no final seja equivalente ou maior do que nos dispomos a pagar, dar sua saúde em longo prazo para uma conquista em curto prazo não é uma troca rentável. Usar de drogas ou estimulantes ilícitos que agridem o corpo de tal forma que a natureza não consiga cumprir seu papel saudável é um preço alto demais para um conquista que não lhe é merecida. Ainda que o fator psicológico lhe pregará uma peça, pois no fundo saberá que não seria capaz da conquista se usasse apenas seus próprios meios. Essa consciência lhe colocará ainda mais distante daqueles que estão onde estão por esforço próprio, mesmo sendo segundos, terceiros ou décimos em relação ao topo. A medida de sua própria estatura dá o homem a real medida de seu potencial para assim poder colocá-lo em ação. Falsear essa estatura é falsear a realidade e viver sob uma realidade falsa é ter resultados enganosos e contraditórios.

O caso do doping de Mariano Puerta nos coloca frente a algumas questões sobre limites, custos/benefícios, moral, ética e competitividade. Nenhuma dessas questões são estáticas e definitivas, mas o significado que se dá a elas é. Ao se passar dos limites, ter benefícios a custos exorbitantes, ao inverter as questões de moral e ética e aceitar a competitividade como uma área onde se faz qualquer coisa para vencer, os resultados serão definitivos e espelharão esse significado. Ao saber jogar com seus limites, ter benefícios compatíveis com os custos, usar da moral e da ética para competir e entender que o limite da competitividade é o limite do valor de sua vida e de sua integridade como ser humano, os resultado também serão definitivos e espelharão o significado verdadeiro de suas conquistas.

Fernando Fontoura

Sobre Fernando

Em 1998 lançou Configure seu Jogo – o tênis além do instinto. Em 2003 lançou Tênis para Todos editado pela ULBRA (Universidade Luterna do Brasil).

Tênis para Todos foi usado como bibliografia no livro Tênis para Crianças - Manual para pais, filhos e mestres , lançado em 2004 por Suzana Silva, professora com método próprio e administradora de academias em São Paulo.

Produziu e apresentou um programa de TV por 4 meses com o titulo Tênis Para Todos que tinha por objetivo socializar o esporte.

Atualmente escreve crônicas esportivas em um sites especializados e revistas de tênis.

Foi jogador regional e ministrou aulas por dez anos tendo vários cursos no Brasil e exterior.

Confira mais sobre seu livro: Tênis para Todos
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