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Blog – Entenda a polêmica envolvendo Novak Djokovic e o Conselho de Jogadores

Quarta, 10 de julho 2019 às 11:18:16 AMT

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Tênis Profissional

Por Marden Diller – Um caso de agressão pode provocar um racha sem precedentes no mundo do tênis. O centro da polêmica é Justin Gimelstob, recentemente sentenciado a 60 dias de trabalho comunitário por agressão em outubro de 2018.



Apesar da punição e de um comprovado histórico de violência de Guimelstob, parte da classe quer vê-lo no lugar de Chris Kermode, presidente da ATP e há meses em um processo de fritura.Novak Djokovic, presidente do Conselho de Jogadores, lidera a ala pró-Guimelstob - o atual número 1 do ranking parece não se importar com o gênio esquentado do dirigente.

Preso apenas em 21 de novembro de 2018, acusado de ter cometido uma agressão na noite de Halloween, Gimelstob pagou uma fiança no valor de US$ 50 mil que o permitiu responder ao processo em liberdade. O americano também manteve normalmente suas atribuições para com o tênis, após ter uma votação favorável ao prosseguimento de seu trabalho em dezembro, liderada por Novak Djokovic, envolvendo três membros do Quadro de Diretores, Gavin Forbes, Charles Humphrey Smith e Mark Webster; dois representantes dos jogadores, David Egdes e Alex Inglot; além de outros dois tenistas em atividade da ATP, membros do Conselho dos Jogadores.

O Board of Directors da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), presidido pelo britânico Chris Kermode, é composta basicamente por duas alas: os Player Representatives (ou representantes dos jogadores), que na época do ocorrido, eram David Edges, Alex Inglot e o próprio Justin Gimelstob; e os Tournament Representatives (ou representantes dos torneios) que eram Gavin Forbes, Charles Humphrey Smith e Mark Webster.

 

Chris Kermode ao lado de John Isner e Novak Djokovic

 

Essas duas alas são responsáveis por dialogar com o Conselho dos Torneios e com o Conselho dos Jogadores, que tinha Novak Djokovic na presidência, Kevin Anderson na vice-presidência e representação dos jogadores ranqueados do 1 ao 50, ao lado de Sam Querrey, Robin Haase e John Isner, do 51º ao 100º os representantes eram Yen-Hsun Lu, Vasek Pospisil. Representando os 100 primeiros duplistas do ranking, tínhamos Bruno Soares e Jamie Murray, além de Daniel Vallverdu representando os treinadores.

De acordo como transcrito do depoimento da vítima das agressões do americano, Randall Kaplan, divulgado pelo site Tennis Life, na noite de Halloween, Kaplan estava com sua esposa e sua filha de dois anos no distrito de Brentwood, em um local onde as famílias tradicionalmente fazem a noite de busca de doces, quando foi atacado pelas costas por Gimelstob, que o derrubou no chão e começou a desferir diversos socos na parte de trás de sua cabeça e seu rosto. O ex-tenista, de 1,96m de altura, então ajoelhou-se sobre a vítima e desferiu entre 50 e 100 golpes ao longo de um período que, segundo Kaplan, foi de três minutos, até que locais conseguiram retirar o agressor de cima da vítima. Durante o ataque, Gimelstob gritava “eu vou te matar” e apenas se acalmou e saiu do local quando sua namorada, que assistiu a todo o ataque, o chamou para ir embora pois haviam chamado a polícia.

O ataque causou um grande trauma em Kaplan, em sua esposa e em sua filha de dois anos, que assistiram ao evento totalmente impotentes. Posteriormente, a vítima descobriu que o agressor vivia uma rua abaixo de onde morava sua ex-esposa e seus outros três filhos. As agressões causaram diversas sequelas em Kaplan, que lutou meses contra concussões, machucados, limitações físicas e outros problemas. Em sua atual esposa, o trauma causou o aborto do filho que esperavam.

Nos meses seguintes ao ataque, Randall Kaplan iniciou uma pesquisa acerca da vida de Justin Gimelstob e descobriu que este era o quinto ataque do ex-tenista em apenas quatro anos. Seu primeiro incidente, em 2016, envolveu uma agressão à sua ex-esposa, na qual Gimelstob invadiu sua casa, agrediu-a física e emocionalmente e tentou atropelá-la com seu carro, tendo seu filho no banco de trás. No ano seguinte, perseguiu um amigo de sua ex-esposa, Kris Thabit, até um restaurante, arrancou o celular de seu bolso e o agrediu. Em seguida, assinou uma ordem de restrição alegando que Thabit havia seguido-o até o local e que ele teria agido em legítima defesa. No entanto, filmagens do local provaram o contrário.

Ainda segundo Kaplan, em setembro de 2017, Gimelstob estava jogando um torneio de padel em Veneza, quando se envolveu numa discussão sobre uma chamada de bola fora. O ex-tenista teria desferido ofensas homofóbicas ao adversário, além de agressão física, sendo segurado pelo número 1 do ranking de padel, que separou a briga. Também em 2017, o americano teria ameaçado uma mulher chamada Mia Feil, dizendo que “vou matar seu marido se ele testemunhar novamente em meu caso de divórcio”. Feil prestou queixa, mas não seguiu com o processo por medo da reação do ex-atleta.

Diante do chocante relato e das acusações, Gimelstob e sua defesa não apresentaram nenhuma contestação, o que, pela lei da Califórnia, tem o mesmo peso que uma declaração de culpa. O ex-tenista, então, foi condenado a três anos de condicional, 60 dias de serviço comunitário e tratamentos de controle de raiva, apenas pelo caso da agressão a Randal Kaplan, em audiência realizada no dia 23 de abril de 2019.

Norte-americano, nascido em 26 de janeiro de 1977, Justin Gimelstob foi tenista profissional entre os anos de 1996 e 2000. Em simples, conquistou 9 títulos no circuito Challenger e atingiu a 63ª posição no ranking. Seus melhores resultados foram nas duplas, onde figurou como 18º melhor do ranking, em maio de 2000, e conquistou 13 títulos. Nas duplas mistas foi campeão do Australian Open e de Roland Garros em 1998. Após sua aposentadoria, vem trabalhando como treinador do também norte-americano John Isner, desde 2014, e como membro do ATP Board desde 2015; além de ser comentarista do canal Tennis Channel.

 

Justin Gimelstob durante o torneio de Wimbledon, em 2018

 

Sua posição e experiência dentro do circuito profissional, o colocaram como um grande apoiado por membros do Conselho para uma posição de liderança na entidade. À sombra deste apoio, um movimento se iniciou na entidade no início de 2019, liderado pelo sérvio Novak Djokovic que teria entrado acompanhado de um advogado na primeira reunião da ATP na temporada e pedido a saída de todos que não fossem jogadores, tendo uma conversa de portas fechadas com os demais colegas de circuito sobre, supostamente, um aumento nas premiações.

Durante o Masters 1000 de Indian Wells, acontece uma das mais importantes reuniões da ATP na temporada, onde são decididas muitas coisas, dentre elas até mesmo o destino de alguns torneios, como já revelou o diretor do Rio Open, Lui Carvalho, em algumas ocasiões. Também é lá que o Conselho dos Jogadores e o ATP Board se reúne pela segunda vez; e foi justamente nessa reunião onde a situação se agravou.

Após tal reunião, foi decida a não renovação do contrato com o presidente Chris Kermode. O brasileiro Bruno Soares, um dos representantes do duplistas no Conselho, conversou com exclusividade com o Tênis News, onde revelou que “a saída dele (Kermode) foi uma decisão do Board da ATP, pois nós do Conselho ficamos bastante divididos”. Neste caso, o Board que decidiu pela saída do presidente, foi o mesmo que decidiu pela continuação de Gimelstob em seu cargo após a prisão por agressão, desta vez com o próprio americano participando da votação. Novamente, o resultado não foi divulgado.

A decisão pegou o mundo do tênis de surpresa, já que Kermode havia conquistado diversas divisas para o tênis, inclusive nas divisões mais baixas de torneios, como a hospedagem gratuita para os tenistas em todos os eventos do circuito Challenger. O suíço Roger Federer, ex-presidente do Conselho, veio a público garantir que buscaria entender junto à Novak Djokovic o que levou à essa decisão, uma vez que, segundo ele, havia tentando se reunir com o sérvio em diversas ocasiões anteriores a Indian Wells e o mesmo alegou que não teria tempo para tal.

Dois meses depois, após sua condenação, Justin Gimelstob renunciou de seu cargo na ATP, viajando até Madri, onde ocorria o Masters 1000 espanhol, para anunciar sua decisão diretamente a Novak Djokovic.  Segundo relatou, queria olhar o sérvio nos olhos, desculpar-se e agradecer. Djokovic, por sua vez, iniciou uma narrativa de defesa do americano, acreditando em sua volta por cima, colocando-o como o mais importante recurso à disposição dos jogadores na ATP nos últimos 10 anos, e voltando atrás em seu primeiro posicionamento, colocando como possível a continuação de Kermode na presidência da entidade.

O contínuo apoio do sérvio a Gimelstob o colocou, de acordo com a imprensa especializada, como o mais provável sucessor de Kermode, como retratou Kevin Mitchell em sua coluna no jornal The Guardian. 

Na semana do Masters 1000 de Roma, Djokovic teve seu primeiro grande bate-boca com um jornalista acerca de seu apoio a Gimelstob. Durante a discussão com Ben Rothenberg, o sérvio se exaltou e disse que “você escreve, tuíta, publica, consideram que sua fonte é infalível, e geram um tsunami contra a gente. Não digo que tudo que você escreve seja falso, mas não é porque não saímos para negar cada uma das mentiras que elas se convertem em verdades. Você está questionando qual detalhe específico (eu não concordo). Eu estou falando sobre o processo. Não é justo. Se você quer escrever sobre toda a história e entender ambos os lados, então você veria ambos os lados. Eu sinto que eu fui exposto por ser o presidente do Conselho e ter esse cargo. Todo mundo me culpa por tudo o que acontece no tênis neste momento, o que acho que é injusto”.

Pouco mais de um mês depois, na sexta-feira anterior ao início de Wimbledon, o Conselho de Jogadores e o ATP Board reuniram-se novamente. Desta vez, em um debate com 7 horas de duração que resultou na renúncia de parte do Conselho. O holandês Robin Haase foi o primeiro a se pronunciar, alegando que uma das razões de sua saída seria o fato de “nossa representação não estar no nível certo”.

Horas após, o ucraniano Sergyi Stakhovsky anunciou sua posição, indo um pouco mais a fundo em seu relato: “Em face dos eventos recentes, eu não acredito que meu envolvimento no Conselho dos Jogadores tem tido algum impacto no processo do que o futuro trará para o nosso circuito ou como isso ganha forma. Os assuntos que vieram à tona descreditaram por completo nossa estrutura e liberdade em apresentar nossas obrigações e dever em representar os jogadores. É triste ver que ganhos e vinganças pessoais estão no coração de tal grande desconexão no Conselho”. Por fim, o terceiro membro a renunciar foi o venezuelano Daniel Vallverdú, treinador do búlgaro Grigor Dimitrov e responsável por dar voz aos treinadores no Conselho.

Diante das renúncias, Djokovic também se pronunciou: “Compreendo as baixas de Daniel, Jamie e Robin. Para que vocês entendam, ontem tivemos uma reunião que começou às 17h e foi até mais de meia-noite. Fico chateado saber que houve vazamentos porque isso prejudica a confiança no grupo. Não há nada a esconder, mas muito do que se fala é confidencial”.

O clima no circuito como um todo se manteve um pouco tenso, com todos esperando para saber quais seriam os próximos passos do Conselho, até que, na última quarta-feira (04), o sérvio voltou a se envolver num bate-boca com um jornalista, desta vez o americano Bill Simmons, com relação a seu apoio a Gimelstob.

Durante a coletiva, Simmons indagou ao sérvio se ele havia lido o testemunho da vítima, comentando ser impactantes. O sério rebateu, indagando se o americano havia sido condenado — algo ocorrido durante o julgamento em abril — recebendo uma explicação completa por parte do jornalista sobre como ocorreu o processo de julgamento de Gimelstob.

Em seguida, o sérvio confirmou não ter lido o testemunho e ter ouvido apenas o lado do americano, voltando a pontuar que ambos têm uma boa relação, mas ressaltando que caso ele fosse condenado, não teria lugar no tênis. Novamente, o jornalista pontuou que a condenação já havia ocorrido e causou desconforto no sérvio, que disse ter se sentido atacado.

O bate-boca prosseguiu, com Djokovic prometendo ler o testemunho da vítima e combinando uma nova conversa com Simmons em outro momento. A transcrição da conversa na coletiva, em português, pode ser conferida AQUI, e o vídeo do momento segue abaixo, a partir dos 5m11s.

Pouco depois de Djokovic, o sul-africano Kevin Anderson, atual vice-presidente do Conselho, também foi indagado sobre o caso Gimelstob, assumindo uma posição quase que de apoio ao americano. “Obviamente Justin trouxe muitos benefícios aos jogadores e lutou muito por todos nós. Ele cometeu, como ele mesmo admitiu, um grande erro em algumas de suas ações há um ano atrás. Mediante isso, decidiu se afastar do tênis para resolver tudo da melhor forma possível”.

Toda a situação está levando a um clima de instabilidade e incerteza sobre o futuro do tênis, algo que não foi visto durante os anos de liderança de Chris Kermode, com todos os setores da diretoria do esporte trabalhando de forma igualitária em prol de melhorias. Por enquanto, nada é certo e o desenrolar dos fatos ainda é aguardado.

Enquanto a ATP enfrenta sua própria crise, a Federação Internacional de Tênis (ITF) não passou ilesa. O atual presidente, David Haggerty, foi acusado nesta semana de adotar medidas, utilizando as ferramentas da ITF, que trariam vantagens para si na eleição presidencial da entidade, dentre elas a criação de um novo código de ética para as eleições. Pode ser que o tênis esteja diante de seu momento mais turbulento.