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Ricardo Schlachter, homem que derrotou Guga após Roland Garros 97, e sua pérola

Segunda, 29 de junho 2020 às 13:45:27 AMT

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Tênis Profissional

Por Fabrizio Gallas - Natural de Joinville, poucos conhecem Ricardo Schlachter. Como tenista foi 260 do mundo e tem na carreira uma vitória com enorme expressão, sobre Gustavo Kuerten, em 1998, no Campeonato Brasileiro, disputado no Harmônia Tênis Clube, em São Paulo.



Uma partida que guarda com carinho em sua carreira não só pelo triunfo contra o ídolo que no ano anterior havia ganho Roland Garros e que na época beirava o top 10 do mundo. 
Rico, como é chamado, tem uma ligação forte com Guga. A partida em questão foi apenas um capítulo na trajetória dos dois que começou no tênis infantil, com sete ou oito anos viajaram juntos e jogavam torneios estaduais. Schlachter treinou em Camboriú com Larri Passos e trabalhava junto com Kuerten na época de sua primeira conquista em Paris. 
Em um bate-papo com uma live com o Tênis News, Rico lembrou a amizade que perdura até hoje e recorda com detalhes a vitória épica sobre o Manezinho da Ilha.
"Essa vitória sobre o Guga foi extremamente especial. Um brasileiro campeão de Roland Garros, pra mim mais especial pois além de tudo Guga era um grande amigo desde a infância. Meu irmão e eu dormíamos na casa deles (do Guga e do irmão dele). Existia ali uma afinidade, crescemos juntos, e naquele momento que ele ganha Roland Garros em 1997 eu treinava junto com ele em Camboriú junto com o Larri. Lembro que chorei bastante ao ver o Guga levantando o caneco, eu estava na Alemanha jogando o Interclubes e realmente ver um amigo, companheiro teu vencer isso tudo por menor que seja, você se sente um pouco parte daquele sucesso pois se sente parte em dividir quadra e começa a ver que aquele sonho não é só um sonho, quando acontece próximo de ti é factível e o Guga trouxe essa realidade para nós brasileiros, que é possível chegar lá. Grande lição".  

Em 1998, Rico se mudou para treinar com o gáucho Fernando Roese em Novo Hamburgo, fundamental para o triunfo: "Estava no meu melhor ano tecnicamente, físicamente, tinha me acertado com um novo treinador, muito importante na minha carreira, as características dele contribuíram demais para o momento que eu estava vivendo e deu no que deu, os resultados apareceram", disse. 
Schlachter conta que Kuerten o 'ajudou' na vitória, ainda no aquecimento:  "Pra mim não tinha expectativa nenhuma de ganhar. Era torneio de grupos e ele já tinha perdido no dia anterior do Adriano Ferreira. Na minha cabeça era mais um desafio pois ele não poderia perder senão estaria fora das finais e isso soou como um 'agora ele vem com tudo'. Comecei de fato bem nervoso. Só que o curioso ele me ajudou a me soltar. No aquecimento eu estava na rede e o Guga olhou pra mim e fez um sinal, de brincadeira como que passando pra mim um recado. Nos conhecíamos bastante, ajudou a me soltar. Tinha umas 2 mil pessoas assistindo que para ele era normal e pra mim não era, realidade de jogar future, challenger, estava totalmente com torcida contra. Imagina, quem não queria ver o Guga jogar na semifinal ?"

 

Reportagem do Diário Catarinense da época / Foto: AE/DC/São Paulo 


Schlachter venceu no terceiro set por 6/4 1/6 6/3, mas detalhou que os primeiros pensamentos eram o de apenas não perder feio: "Passava na minha cabeça de eu se eu falhar, tomar um tombo, perder feio, essa insegurança todo atleta tem. A partir do momento que começou o jogo, o friozinho da barriga passou, a adrenalina já deu uma diminuída. Como comecei de forma boa, saque a saque daí já pensei que não tomaria 0 e 0 ou 1 e 1 e passei o estágio para mais tranquilo. Começa num estágio de curtir o jogo, é fácil falar e não é fácil executar." 
"A partir do momento que vai pra quadra contra um campeão de Slam, na quadra que ele joga (saibro), os pontos fracos dele ficam quase imperceptíveis. Tem um lado que ele é melhor no backhand que a direita, mas não dá para dizer que a direita dele era ruim. Talvez ele seja um pouco mais previsível, machuque um pouco menos, mas um jogador dessa magnitude, é muito difícil. Muito mais passa pela questão do teu comportamento emocional, de como lidar principalmente sabendo que pode tomar umas escovadas, uns winners fenomenais e quanto aquilo vai te jogar pra baixo, passou um vendaval aqui e estou de pé. Se manter firme e ir para o embate, ficar de pé, ir para a luta. E daqui a pouco acha um jeito". 
"O primeiro set foi assim, começando a tentar me posicionar no jogo, quebrei o saque, fechei por 6/4. Eu sacava bem, gostava de ir pra rede, isso é outra coisa que faz bem quando se joga contra alguém melhor, ter um entendimento do que você faz bem. Se não acreditar em ti, não tiver esse emocional, é preciso acreditar no que tu sabes fazer. Foi o que aconteceu.  Quando começa o segundo set ele começa a jogar como ganhou Roland Garros, me deu 6/1 em 20 minutos eu falei 'Meu Deus'. Entra tudo na cabeça de novo, agora vai ser 6/1 na negra.  Única coisa que passou na cabeça no 3º foi manter meu saque, manter vivo, dane-se se perder todos os saques dele de 40 a 0. Tênis não se consegue administrar, ou você ganha ou perde o ponto. Quebrei ele no 3/2, abri 4 a 2, aí começa o turbilhão, eu me dizia que ia ganhar, controlei muito bem meus sentimentos, baixei bastante minha ansiedade. Administrei, fiz 5/2 com meu saque, ele fez o dele. Quando fui sacar fiz 40 a 0 num estágio tão bacana, joguei ponto a ponto. Quando fiz 40 a 0 caiu a ficha, eu vou ganhar, é um dos piores erros, entrar em um estado de relaxamento, estágio do administrar. É só fazer qualquer coisa, mas não funciona. Joguei 40 a 0 administrando, winner do Guga. Saco, winner do Guga, 40 a 30. Quando eu olho falei não é possível, vou perder. Será cara ? Daí lembrei de uma coisa, onde entram as dicas, podem parecer tão óbvias pra quem esta de fora, mas difícil executar, o que o Larri me ensinou por quatro anos e meio e o Fernandão (Roese) falava. Joga a pressão para o outro lado, se ele for bom, parabéns. Eu tinha um bom saque, saquei quique, aberto na esquerda dele e fui pra rede. Falei seja o que Deus quiser, mas não vou ficar administrando, trocando bolinha. Vou fazer acontecer. Sacar, pressionar, gostava de rede, se ele me passar parabéns pra ele, quando fui pra rede lembro como se fosse hoje, ele jogou a esquerda cruzada, quando ia pra rede, olhei aquela bola vindo, ela parecia a 20 metros de distância, eu nunca chegaria, sabia que ela iria boa, parecia que eu estava em câmera lenta, tentei alcançá-la, me estiquei todo, dei um voleio curtinho, passou de lado, olho pra ele, vejo ele sair correndo e desistindo, não vou chegar mais, aí caiu a ficha, acabou, tensão toda, é um alívio, felicidade, alegria, de sensações indescritíveis, vitória que tu treina horas e horas, meses e anos, que tu consegue, se realiza. Sensações para o resto da tua vida".
Schlachter acabou derrotado na semifinal naquele torneio para Alexandre Simoni e aprendeu uma lição. Comemorou muito o dia anterior. Sem festas, nem baladas, apenas perdeu o foco: "Ttive essa lição que uma vitória não faz você ganhar um torneio, não dá para comemorar e também não dá para chorar muito uma derrota pois ali pra frente você pode fazer melhor".

 

 


O trabalho com a  pérola Boscardin


Como treinador, Rico, atualmente com 42 anos, levou Ricardo Mello ao top 50 como onde na primeira semana de trabalho viveu o maior título do campineiro, o ATP de Delray Beach, na Flórida,em 2004, se tornando um dos poucos brasileiros com um título deste nível na carreira. 
Há alguns anos fundou a RS Tennis onde tem Pedro Boscardin como principal atleta, tenista que venceu importantes torneios da gira europeia dos 14 anos, dominou o ranking nacional nos 12 anos, foi vice-campeão Mundial com o Brasil naquela temporada, e hoje, com 17, está entre os melhores juvenis do país no ranking mundial ITF. Rico destaca a ambição e competitividade do atleta.
"Conheci o Pepe muito novo, com sete anos e desde as primeiras vezes vi que se tratava de um menino diferente, competitivo, você percebe esse grau de competitividade que fazem eles irem muito longe. Acredito muito nisso. Ambição, fome de vencer, isso que te faz entrar todo dia numa quadra, querendo ser melhor do que ontem, vi essa característica no Pepe, sempre foi um diferencial nele e é até hoje. Acredito na personalidade que ele tem pois em algum momento pode te limitar. Não estou querendo dizer que o Pepe será 1, 3, 5 do mundo, mas vamos tentar fazer com que ele seja o melhor que puder," aponta o treinador lembrando de um 2019 difícil para Boscardin onde teve uma lesão no punho que o deixou três meses afastado, justo nos grandes eventos europeus do meio de ano. 

"A partir dos 12 anos que dei uma atenção e virei meu projeto profissional em função dele e do João Loureiro que hoje não está mais conosco, no qual foi bem assertivo, muitas experiências e aprendizados com eles, acertamos muito mais que erramos. Essa trajetória com o Pepe está longe de ter terminado, temos longo caminho pela frente, com longa margem para melhora, com essa fase dele de transição do juvenil para profissional. Infelizmente essa fase final do juvenil não foi a melhor em função da lesão que ele teve ano passado que tirou três meses, lesão no punho."
Para Schlachter, a temporada de 2020 que se mostrava promissora com dois vice-campeonatos de Boscardin na Costa Rica e na Colômbia ficou comprometida. Não se tem notícia concreta sobre calendário da ITF para os juvenis nem mesmo se os Grand Slams na categoria serão realizados no pós-pandemia.
"Nós não temos nenhuma informação de calendário. Devido às circunstâncias teremos um ano bastante difícil em 2020, chances de voltar o circuito normal juvenil, que jogaria basicamente futures e juvenil, eu diria que não é tão promissor, prefiro olhar por esse lado para não criar uma expectativa que não seja atendida. Falo com o Pepe para vivermos o dia pós dia, não dá para projetar muito lá para frente. Não sabemos se teremos US Open, Roland Garros. Ainda esse ano tenha expectativa com circuitos nacionais acontecendo nível profissional e juvenil, o grande problema da pandemia são os deslocamentos, viagens de avião, hoteis, se tá tudo liberado, em um lugar na Europa, e as pessoas para saírem de suas cidades ? É o maior entrave para competições nível internacional. Temos coisas muito positivas aproveitando para trabalhar algumas coisas nele."
Por conta das incertezas de retorno, Boscardin ainda está treinando quatro vezes na semana e aguardando o calendário para intensificar a programação para voltar a competir. 
Boscardin faz parte do Time Guga que tem ainda outros nomes como Natan Rodrigues e Mateus Alves. Se Rico já tem uma ligação com Kuerten, Boscardin também tem com a família do tricampeão em Paris. Sua mãe, Carolina,hoje professora, jogou torneios estaduais e também dividiu apartamentos com Guga e cia. Hoje, Kuerten presta um papel importante na carreira do atleta em consultoria.
"Postura do Guga é sempre muito bacana, fazemos parte do Time Guga, ele acompanha o processo bem de perto, sempre respeita muito a posição comunicação treinador-jogador. Ele vem muito mais falar comigo do que com Pepe embora ele já tenha tido inserções no sentido nutricionista, fisioterapeuta, profissionais que compõe nossa equipe. Ele compartilha experiências dele que para nós é muito importante, mas nos deixa a vontade nas decisões, mas também não se abstem de dar opiniões que acha que tem que dar, colocar observações e nós queremos escutar o que ele tem para nos passar, mas diretamente com o Pepe é muito pouca embora já tenha batido bola com o Pepe. Conversas são sempre comigo , é bastante tranquila e positiva e só temos que agradecer um cara como ele."

"Ele (Guga) poderia simplesmente estar em casa cuidando somente dos filhos e hoje presta esse serviço e toda a rede da Escola Guga espalhada pelo país todo, é contribuição de tempo dele sim. Se existem algumas pessoas que acham que ele não se envolve , estão enganados. História de transformação do tênis brasileiro, mais uma que está sendo proporcionada por ele, pelo Guga."

 

Confira a íntegra do bate-papo pelo Instagram:

 

 
 
 
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